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Clipping

08/06/2015 às 08:51

A fórmula Hawilla

Escrito por: Alberto Dines
Fonte: Observatório da Imprensa

J. Hawilla 'colabora' com o FBI desde o final de 2013. Réu confesso, um ano depois acertava com as autoridades judiciais americanas o pagamento de uma multa de 151 milhões de dólares.

Com apenas uma hora de depoimento numa delegacia no Brooklin nova-iorquino, atraiu o FBI americano, desmontou a FIFA, enfiou no xilindró suíço quase uma dezena de cartolas da periferia futebolística mundial, no meio da qual se exibia, impune e lampeiro, uma estrela de primeira grandeza: o ex-governador do maior e mais rico estado brasileiro, ex-presidente da CBF e agora seu vice, José Maria Marin. Seis dias depois, o terremoto destronou o indestronável imperador do futebol, Joseph “Sepp” Blatter.
 
O autor desta formidável façanha não é cartola, não é político, não se esconde na sombra: jornalista esportivo no interior de São Paulo (São José do Rio Preto) ralou, ralou, ralou, subiu, subiu, subiu, criou uma empresa de marketing esportivo com o sugestivo nome de Traffic, traficou favores, intermediou negócios de milhões, converteu-se em baronete da mídia interiorana e, com o aval do Congresso e do governo federal, obteve em 2003 uma concessão de televisão (TV TEM, afiliada da prestigiosa Rede Globo). Segundo a Folha de S.Paulo (5/6), a emissora e suas repetidoras atendem 318 municípios no rico interior paulista.
 
J. (de José) Hawilla – Jotinha para os íntimos – “colabora” com o FBI desde o final de 2013. Réu confesso, um ano depois acertava com as autoridades judiciais americanas o pagamento de uma multa de 151 milhões de dólares.
 
Quando a direção da entidade suíça passou a exigir dos países-sede das Copas do Mundo estádios, equipamentos e serviços urbanos de altíssima qualidade, estabeleceu-se o “padrão FIFA”. O megaescândalo agora revelado tem exatamente este extravagante e formidável padrão e só começou a ser desmontado graças a uma casualidade: além da mansão de 15 mil metros quadrados em São José do Rio Preto, o exigente Jotinha reside numa propriedade avaliada em 8 milhões de dólares na exclusiva Sunset Island, Miami, Flórida, Estados Unidos da América do Norte – paisinho onde há 241 anos as promiscuidades, por mais extensas e sólidas que pareçam, costumam ser atalhadas pelas autoridades.
 
Mar de lama
 
O segredo que tornou a sucursal brasileira da FIFA invencível e inexpugnável é exatamente a promiscuidade. Convivência espúria, conivência despudorada, a CBF é uma traficante de vantagens e privilégios. Embora conste do artigo 1º de seus estatutos que “goza de peculiar autonomia não estando sujeita a qualquer ingerência estatal”, a CBF tem efetivamente mais poder do que o Ministério dos Esportes. Entidade de direito privado, suas veladas conexões com o Judiciário e o Legislativo a colocam acima do bem e do mal, imune a CPIs e investigações do Ministério Público.
 
Blindagem decisiva para garantir sua imunidade, impunidade e sobrevida são os laços que a CBF mantém com a mídia, especializada ou não. A fulgurante carreira de Jotinha Hawilla é paradigmática: em apenas 36 anos, o indomável profissional demitido por participar de uma greve delirante que tanto prejudicou a categoria, acerta com a Justiça americana – sem espernear – o pagamento de uma multa de quase 500 milhões de reais.
 
Por mais animado que esteja o Congresso neste momento, dificilmente conseguirá identificar, enquadrar e desmontar a promiscuidade que intoxica a mais importante instituição da vida nacional – quase uma religião –, o futebol. Para recuperá-la, desintoxicá-la e injetar um pouco de otimismo neste mar de lama que está tomando conta das arenas novinhas em folha será indispensável o empenho de outra lendária instituição que carece de façanhas para tirá-la de uma de suas piores crises: a mídia.