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Clipping

27/11/2014 às 16:02

AEILIJ contra a censura fundamentalista e pela defesa da liberdade de criação literária

Escrito por: Maria Frô
Fonte: Revista Fórum

O crescimento do criacionismo nos Estados Unidos que nos espantava nas décadas de 1980, 1990 controlando currículos, impedindo estudos sobre a evolução, tempo geológico e a abordagem antropológica das religiões chegou ao Brasil lentamente, mas persistente.

Creio ter sido uma das primeiras autoras a sentir isso fortemente em meu trabalho.

Em 1999 fui convidada pelo editor-chefe da Scipione para desenvolver uma coleção didática para o Ensino Fundamental 1 na área de História.

Os originais ficaram prontos entre 2000 e 2001 e foram inscritos na avaliação do PNLD. A coleção foi aprovada com elogios dos examinadores e publicada no Guia do PNLD- MEC. Foi apresentada por acadêmicos de renome: professoras da Faculdade de Educação da USP e especialistas no ensino de História e Geografia: Circe Bittencourt e  Nídia Nacib Pontuschka. Chegou ao mercado de 2005 quando recebeu o Prêmio Jabuti, o primeiro prêmio na área para este ciclo.

Mas assim que apareceu no Guia do PNLD-MEC um vereador-pastor da Igreja Quadrangular, do município de Pato Branco, no Paraná gastou algumas horas do dinheiro público para disseminar seus preconceitos contra a África e a cultura afro-brasileira na Câmara dos Vereadores de Pato Branco. O pastor denominava a coleção de “coisa do demônio” e eu “autora do demônio”. Tudo isso porque um dos volumes trazia para as crianças a temática da mitologia dos povos indígenas e dos povos africanos.

Em 2007 o antropólogo especialista em cultura afro-brasileira abordou o tema e chegou a relatar o caso do pastor-vereador em um texto acadêmico: Neopentecostalismo e religiões afro-brasileiras: Significados do ataque aos símbolos da herança religiosa africana no Brasil contemporâneo.

Os originais da Coleção foram escritos muito antes da lei 10639/03, antecipando-a em inúmeras recomendações da Lei de 2003 e que se tornaria Diretrizes Curriculares em 2004.

Embora víssemos professores ávidos por materiais sobre história e cultura africanas e a afro-brasileira, víamos também ataques constantes do fundamentalismo religioso.

Uma escola baiana enfrentou o preconceito e a resistência da comunidade escolar e adotou a coleção, a turma ganhou um prêmio com o resultado da produção nas aulas.

É uma coleção que trabalha com delicadeza temas antes costumeiramente desprezados nos livros didáticos: fala de racismo, questão indígena, religiões afro-brasileiras e indígenas, reforma agrária e a luta dos movimentos sociais. Tem um olhar comprometido com o letramento de nossas crianças.

O que é mais triste é vermos crianças, pais e por vezes professores que abraçaram as igrejas neopentecostais negarem suas próprias heranças culturais, criminalizando-as.

Hoje leio o texto da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. O relato da AEILIJ me fez recuperar a trajetória destes mais de 10 anos da minha primeira coleção e entristece saber que mesmo após a Lei 10639/03 autores e professores comprometidos com uma educação cidadã tenha de se deparar com esta perseguição irracional dos fundamentalistas.

Algo efetivamente sério precisa ser feito pelo MEC, por nossas universidades, pelas associações de escritores, ilustradores, pela Câmera Brasileira do Livro,  para salvaguardar nossas escolas da fúria destes irracionais autoritários e inconstitucionais, já que nosso Estado é Laico.

Pela Defesa da Liberdade de Criação na Literatura

AEILIJ VIA Facebook

A AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) convida todos a refletirem sobre uma realidade que nos tem assustado: a volta da censura aos livros infantis. E, o que é, talvez, ainda mais preocupante, uma censura que, desta vez, não é promovida por nenhum governo, mas por pessoas que, a princípio, têm o papel de levar a literatura até as crianças: professores, bibliotecários, coordenadores pedagógicos, editores, livreiros, divulgadores de livros, pais, avós, tios e, como negar, até mesmo por alguns de nós, autores de literatura para crianças e jovens.

Para um olhar desatento, a palavra censura pode parece forte demais. Afinal de contas, parece ser coisa de países com regimes autoritários e centralizadores, como por exemplo, o Paquistão, cuja Autoridade de Telecomunicações recentemente enviou um comunicado às companhias telefônicas exigindo o bloqueio de qualquer mensagem (SMS) que contivesse o nome “Jesus Cristo”. Para justificar tal censura, o órgão alegou que a liberdade de expressão naquele país está sujeita a restrições, no interesse maior da glória do Islam.

Se esta proibição parece absurda e distante, chegou o momento de olhar para o nosso próprio umbigo. Pois o que está ocorrendo hoje em muitos locais no Brasil não é muito diferente disso. Cada vez mais a AEILIJ tem recebido notícias de que determinados livros de literatura para crianças e jovens são vetados em certas escolas e/ou bibliotecas porque citam o nome de deuses ligados a outras religiões que não a religião adotada na instituição. Referências a nomes ou práticas de religiões afro-brasileiras, espíritas, budistas ou outras são usadas como justificativa para a censura.

Em outros casos, o fato de existir, no livro, uma palavra como “diabo”, “capeta” ou semelhante, é tido como razão suficiente para a exclusão de um livro, independentemente do contexto e da motivação em que tal palavra aparece. Tal postura radical e extremada parece esquecer que a própria Bíblia Sagrada traz mais de 100 vezes a palavra Demônio (ou alguma de suas variações), quase todas no Novo Testamento. Em breve estará a Bíblia na mira dos censores furiosos?

De maneira semelhante, têm sido perseguidas, recentemente, obras com palavras e personagens de todos os tipos, da bruxa à fada, do saci ao bicho papão, do Papai Noel à boneca Emília, do palavrão à gíria. A AEILIJ tem visto tais iniciativas com muito receio e consternação, assim como preocupa a imposição frequente de excluir temas, como principalmente a sexualidade, de uma literatura que tem como inspiração dialogar com crianças e jovens.

Há o outro lado, a frase da garota Malala que recentemente ganhou o Prêmio Nobel da Paz e declarou: “Já sei agora o que mais assusta um tirano: uma menina com um livro nas mãos”. Ela tem 17 anos e é a mais nova ganhadora do Nobel de todos os tempos.

Ora, nossa associação acredita na literatura como arte e como expressão de tudo o que é próprio do ser humano, seus dilemas e dúvidas, suas paixões e medos, suas conquistas e frustrações. Mais que isso, entendemos que a literatura para crianças e jovens é um espaço privilegiado para que o leitor conheça a pluralidade do nosso mundo, toda a riqueza de valores, culturas, crenças, ideias, hábitos, linguajares.

Se aceitarmos que um livro de literatura seja banido porque traz uma visão de mundo com a qual não compartilhamos – ou nem isso, apenas uma palavra que evitamos em nosso dia-a-dia, na privacidade do nosso lar – estaremos abrindo a porta para que outras pessoas, em outros momentos e em outros contextos políticos, ideológicos, religiosos ou morais proíbam as palavras, personagens e histórias que tanto nos são caros.

Mais cedo ou mais tarde, o feitiço vai virar contra o feiticeiro. Mas infelizmente ninguém vai perceber, pois as palavras feitiço e feiticeiro estarão, elas também, proibidas.
PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA LITERATURA!!!