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Clipping

08/11/2013 às 06:32

Babel dos cineastas

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

Outdoor com Marlene Dietrich e Brad Pitt, que já passaram pelos estúdios: foi o filme "V de Vingança" (2005), de James McTeigue, que abriu as portas para outras produções de Hollywood

Ao longo dos seus 101 anos, os estúdios de Babelsberg de Potsdam na Alemanha já passaram por diferentes fases do cinema e da história recente. O maior estúdio em larga escala da Europa continental sobreviveu a duas guerras mundiais, o período da Guerra Fria e a reunificação alemã. Localizado a 30 quilômetros de Berlim, o complexo foi o primeiro estúdio de grande porte a ser construído em todo o mundo, ainda em 1912. Hoje, é considerado um terreno sagrado. Por aqui passaram desde ícones do expressionismo alemão, como Fritz Lang e a atriz Marlene Dietrich, até os mais aclamados diretores do cinema contemporâneo, como Quentin Tarantino, Roman Polanski e Brian de Palma.

Carl Woebcken, CEO dos Estúdios Babelsberg, revela que tem um apego sentimental ao negócio que dirige. "Queremos fazer que Babelsberg esteja em forma para o futuro, para que em 10, 20 ou 50 anos exista ainda uma lenda viva e não um mito que já morreu", diz Charlie, como é conhecido em Hollywood.

No início do ano estiveram em Babelsberg os diretores Wes Anderson, para filmar "The Budapest Hotel"; George Clooney, rodando "The Monuments Men"; e Marjane Satrapi com "The Voices". Matt Rhodes, responsável pelo filme "The Voices", diz que ele e os produtores dos outros filmes sentiram um envolvimento acima da média por parte do estúdio: "Todo o time de Babelsberg estava pessoal e emocionalmente comprometido com o nosso filme e você não vê isso com frequência em Hollywood, porque simplesmente aluga um espaço, é um negócio".

Jeremy Dawson, que produziu na mesma época "The Budapest Hotel" - filme escolhido para abrir o Festival de Berlim em 2014 -, segue na mesma sintonia: as equipes locais são de primeira linha, observa. "É um ótimo lugar para trabalhar, as equipes trabalham duro, os artesãos são ótimos, mas o tempo é frio!"

Para sobreviver às mudanças, a estrutura da empresa que administra a área passou por mudanças diversas vezes. Nos tempos da República Democrática Alemã, era ligada à companhia estatal Defa, responsável pelo cinema na antiga Alemanha comunista. Na época, chegou a contar com mais de dois mil funcionários, entre eles diversos roteiristas.

Depois da reunificação, quando o estúdio foi privatizado, esse número caiu para 280. Hoje, 85 funcionários são contratados pelos Estúdios Babelsberg. No entanto, milhares de pessoas trabalham nos sets de filmes como temporários, em contratos que variam desde alguns meses até anos, dependendo da função e da duração dos filmes. A estimativa é que neste ano, até agosto, mais de 2,5 mil pessoas foram contratadas nos projetos de filmes feitos em Babelsberg.

"É um negócio difícil, porque é cíclico e muitas vezes você depende de sorte para ter um bom ano ou não", observa Charlie. Ele assumiu o negócio em 2004 e logo nos seis primeiros meses conseguiu como cliente a Warner Brothers para filmar "V de Vingança".

O produtor do filme, Grant Hill, comenta que foi parar em Berlim por acaso. Tinha um orçamento reduzido e, por isso, buscava uma locação para realizar a produção no Leste Europeu. Já havia visitado Budapeste, Sófia, Bucareste e Praga, mas nenhuma das cidades tinha preenchido as expectativas da equipe. Quando estava no aeroporto, prestes a embarcar de volta para os Estados Unidos, alguém sugeriu: já que estavam na Europa, que fosse a Babelsberg. "Nenhum de nós nunca havia ido a Babelsberg, nem mesmo a Berlim. Fomos às cegas e encontramos tudo de que precisávamos."

Funcionou incrivelmente bem, financeiramente, administrativamente e em termos de criatividade, diz. Nos oito anos seguintes fizeram quatro filmes lá, que ao todo custaram quase US$ 300 milhões.

Para Babelsberg, "V de Vingança" abriu portas para outras produções de Hollywood e mostrou um novo mercado para o estúdio. "É um negócio em que você depende de recomendações dos tomadores de decisão em Hollywood e a Warner foi certamente uma importante referência para nós, porque, logo em seguida, a Sony veio com (o filme) "Trama Internacional", com Clive Owen e Naomi Watts, para nós", lembra-se Charlie.

A consolidação, segundo ele, veio com Tarantino, ao filmar "Bastardos Inglórios", com Brad Pitt, na Alemanha. Hoje, uma rua dos estúdios tem o nome do diretor. "A história por si só não traz filmes, você tem que provar que está acostumado com o sistema operacional de estúdios americanos, com o sistema de compras deles e com as estruturas legais, ou seja, que é confiável e não vão causar problemas fiscais ou outros inconvenientes", diz.

E Babelsberg tem a característica de conseguir se adaptar a diferentes situações e filmar produções com muitos efeitos especiais, como "Speed Racer" ou "Os Três Mosqueteiros", mas também fazer filmes históricos para os quais é preciso construir cenários. Para "Trama Internacional", por exemplo, foi construída a parte interna do Museu Guggenheim de Nova York; em "Anônimo", foi feita uma réplica do Globe Theater, onde as peças de Shakespeare eram encenadas no século XVII.

No início do ano, Wes Anderson, George Clooney e Marjane Satrapi estiveram em Babelsberg para filmar suas novas produções

O departamento de arte é um dos destaques do estúdio, que se tornou famoso ao construir os cenários futurísticos do filme "Metrópolis", em 1927. De lá pra cá, o setor se modernizou. "Nós temos investido no nosso departamento de arte, enquanto outros estúdios têm fechado o deles, pois pensam que, por causa dos efeitos especiais, esse tipo de estrutura não será necessária daqui a 20 anos", conta Charlie. Com isso, Babelsberg atrai muitos diretores que ainda preferem a construção de cenários com o qual os atores possam interagir.

Outra adaptação necessária foi a capacitação da equipe de filmagem para aprender o estilo hollywoodiano. "Em cada produção que fizemos em Babelsberg sempre tentamos usar mais profissionais alemães", conta Hill. Para o produtor, saiu mais em conta treinar alemães do que trazer pessoas de fora. No último filme que rodou, "A Viagem" (2012), eles trouxeram somente 20 profissionais, de uma equipe de quase 400.

Um estímulo fundamental para que Babelsberg se tornasse atraente financeiramente foi a criação, em 2007, de um fundo federal de incentivo a filmes (DFFF, sigla referente a Deutscher Filmförderfonds), que destina ? 70 milhões por ano para produções audiovisuais. E foi justamente em 2007 que Babelsberg teve o melhor resultado financeiro, ao conseguir ? 6 milhões com 12 grandes produções, entre elas "Ultimato Bourne", "Operação Valquíria", "O Leitor", "Trama Internacional" e "Speed Racer".

Nas contas do Ministério da Cultura, o fundo trouxe para Alemanha produções estrangeiras que injetaram na economia seis vezes o valor recebido em subsídios. Ao todo, o impacto dos recursos desde a sua criação alcançaram mais de ? 2,9 bilhões. O ministro Bern Neuman acredita que o subsídio fez o cinema alemão florescer. "Várias produções financiadas pelo DFFF se tornaram em sucesso de bilheteria, causando uma nova percepção dos filmes alemães no exterior em razão da sua qualidade. Ao mesmo tempo, o DFFF foi responsável, em grande parte, pela crescente rede entre produtores alemães e internacionais, resultando num grande número de coproduções".

O fundo reembolsa as produções em um quinto do que é gasto na Alemanha, ou seja, para um filme com planos de gastar ? 50 milhões no país são fornecidos ? 10 milhões, em diferentes fases do projeto. Esse é um dos grandes atrativos deste fundo, porque funciona como uma injeção de capital no início da produção. Além disso, os Estados alemães também oferecem fundos que podem ser usados junto com os recursos federais.

O fundo auxilia Babelsberg a aproveitar um momento em que muitas produções hollywoodianas deixam os Estados Unidos em busca de melhor custo-benefício em outros países.

No entanto, o valor da subvenção federal a um só filme é limitado em ? 10 milhões, o que afasta as grandes produções com orçamentos de mais de ? 50 milhões. "Você tem a capacidade, a infraestrutura e os equipamentos para fazer grandes filmes (em Babelsberg), mas em produções de orçamentos de mais de US$ 100 milhões não há a quantidade subsídios para ser competitivo", nota Hill, que, além de "V de Vingança" produziu "Titanic", os dois últimos filmes da trilogia "Matrix" e "A Árvore da Vida".

Nesse caso, Babelsberg enfrenta a concorrência do Canadá, da Nova Zelândia e do Reino Unido, com limites maiores de incentivos. Essa foi uma das razões pela qual a Warner decidiu filmar "Jupiter Ascending" (ainda sem título no Brasil) no Reino Unido e não na Alemanha. A produção é o próximo filme dos irmãos Waschowski e tem lançamento previsto para julho.

O primeiro estúdio começou a ser construído em 1911 por uma empresa alemã chamada Bioscop. A construção parecia uma estufa de vidro com várias cortinas na parte de dentro para poder aproveitar a luz do sol da melhor forma possível, já que as câmeras da época precisavam de muita luminosidade. E a primeira diva de Babelsberg foi a atriz dinamarquesa Asta Nielsen, que empolgava a plateia na época do cinema mudo.

No início da década de 20, a Bioscop realizou fusão com a Decla Filmes, administrada por Erich Pommer, principal executivo do cinema expressionista europeu. E nos anos seguintes Babelsberg serviu de palco para vários gênios do expressionismo alemão, que representavam a vanguarda do cinema da época.

Em 1926, um novo estúdio foi construído para abrigar as ideias futurísticas do diretor Fritz Lang, que revolucionou o cinema ao filmar ali "Metrópolis", também nos tempos do cinema mudo.

Três anos mais tarde foi construído o estúdio chamado de Tonkreuz. Desenhado em formato de cruz, foi o primeiro estúdio alemão adaptado para o cinema com sons. Em 1930, Marlene Dietrich encantou o público no primeiro filme falado de grande repercussão, "O Anjo Azul", de Josef von Sternberg.

"Queremos fazer que Babelsberg esteja em forma para o futuro, para que em 10, 20 ou 50 anos exista ainda uma lenda viva e não um mito que já morreu", afirma Woebcken, CEO do estúdio

No entanto, os estúdios também tiveram momentos controversos. Com a ascensão do nazismo, muitos profissionais do cinema deixaram a Alemanha. Alguns dos diretores e cinegrafistas migraram para os Estados Unidos e acabaram por influenciar toda uma geração com o expressionismo alemão. Técnicas de iluminação, construção de cenários e truques de câmera desenvolvidos em Babelsberg foram então copiados e adaptados para os filmes de terror e suspense americanos.

Sob a direção do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, os estúdios Babelsberg produziram mais de mil filmes entre 1933 e 1945 com a temática nacional-socialista, entre eles "Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, que usou movimentos de câmera modernos para a época, ao retratar um encontro do partido nazista de 1934. A exibição desse filme na Alemanha é proibida ainda hoje por sua forte mensagem nazista.

Logo após a Segunda Guerra, em maio de 1946, foi criada a Defa, empresa de filmes da Alemanha Oriental, que passou a ser a nova administradora de Babelsberg. Os estúdios passaram, então, a ser estatais e ficavam a pouco mais de um quilômetro do Muro de Berlim, no lado da Alemanha comunista. Durante a Guerra Fria, foram feitos mais de 700 filmes nas instalações, 150 para o público infantil. Entre eles, está o desenho animado dos Sandmänchen (Homenzinhos de areia), que até hoje são muito populares na Alemanha.

Depois da queda do Muro, os Estúdios Babelsberg foram privatizados. Em agosto de 1992, o grupo francês Compagnie Générale des Eaux (mais tarde incorporado pela empresa Vivendi Universal) comprou as instalações. Os novos donos investiram mais de ? 500 milhões na infraestrutura do local. Em 2001, chegaram a produzir "O Pianista", ganhador de três Oscars, entre eles o de melhor diretor para Roman Polanski e melhor ator para Adrien Brodie.

Em 2004, os estúdios mais uma vez trocaram de mãos, dessa vez para a empresa alemã Filmbetriebe Berlin Brandenburg, que os administra até hoje.

Nos anos de 1924 e 1925, o então jovem Alfred Hitchcock trabalhou como assistente de diretor, roteirista e diretor de fotografia em Babelsberg. Nessa temporada, o diretor inglês conheceu Alma Reville, a roteirista inglesa que mais tarde se tornou a sua mulher. Mas as influências dessa temporada em Babelsberg vão além da vida privada de Hitchcock. Muitos dizem que a força das imagens e uma forte influência do expressionismo alemão podiam ser sentidas em todos os filmes dele. Na época, o jovem aproveitou ao máximo a oportunidade de filmar ao lado do diretor alemão F.W. Murnau, um dos ícones do expressionismo alemão na década de 20. "Tudo o que eu tinha que aprender sobre cinema, eu aprendi em Babelsberg", confirmou posteriormente o próprio diretor inglês.

Por Albert Steinberger | Para o Valor, de Potsdam (Alemanha)