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Clipping

06/04/2015 às 15:34

Cinema, ditadura e feminismo: um resgate necessário

Escrito por: Camila Galetti
Fonte: Portal Vermelho

Resgatar as vivências, articulações e militâncias de mulheres que resistiram ao período de ditadura militar no Brasil, é de extrema importância, pois raramente na história do nosso país as mulheres aparecem como precursoras e como combatentes, relegando apenas aos homens uma trajetória política de enfrentamento com governos ditatoriais. Muitas histórias foram apagadas, sequer contadas, vivências foram silenciadas.

No Brasil dos anos 1960/70, a presença das mulheres na luta armada, e no movimento revolucionário em geral, representou uma profunda transgressão ao que era designado como próprio do sexo feminino. A transgressão de gênero teve, na repressão e na tortura, uma dimensão específica, pois o fato de ser mulher e revolucionária, era visto como um ato de atrevimento, como se as mulheres estivessem ocupando um espaço que não estava destinado a elas e por isso, elas foram consideradas subversivas pelo Estado, a repressão voltada para as mulheres adquiriu um caráter específico. As mulheres eram estupradas, submetidas a choques elétricos mesmo estando grávidas; objetos eram introduzidos no seu órgão sexual, ou mesmo a violência psicológica, talvez a mais praticada.
 
Os corpos femininos também eram “avaliados” o tempo todo pelos torturadores, aquelas que se aproximavam do padrão hegemônico de beleza imposta pela sociedade – mulheres magras, brancas, de cabelos lisos-, eram constantemente assediadas e abusadas. Mulheres mais velhas, negras, eram humilhadas pelas formas de seus corpos e cor de suas pelas, conforme citado em diversos depoimentos como o de Maria Diva de Faria, presa no ano de 1973 em São Paulo.
 
Ela relatou que os torturadores ridicularizavam as presas e depois as estupravam.
Nesse sentido, vale a pena ressaltar a importância de eventos como a Mostra de Cinema pela Verdade que tem exibido gratuitamente esse ano quatro recentes documentários sobre a ditadura no Brasil em universidades dos 27 estados do país, dentre eles o documentário do diretor Flávio Frederico, “Em busca de Iara” (2014). Em Brasília/DF, o documentário sobre Iara Iavelberg, uma dessas revolucionárias de história negligenciada contará com duas sessões, uma já ocorreu e outra prevista para o dia 30/03 no campus Darcy Ribeiro da UNB, e após a exibição haverá debate sobre a presença das mulheres na luta armada e da importância de se dar visibilidade a trajetória de vida de mulheres combativas.
 
Durante muito tempo prevaleceu a versão ‘oficial’ de que Iara Iavelberg, militante da Polop, depois VPR e MR-8, se matou, para evitar as torturas que certamente seria submetida caso fosse pega viva, pelos agentes do DOI-Codi/RJ deslocados para Salvador/BA, onde Iara estava quando procurada pela polícia. O documentário produzido por Flávio Frederico mostra as contradições do relato ‘oficial’ e as fraudes referentes à morte de Iara. O mais intrigante é o desaparecimento do laudo necroscópico dela. No Instituto Médico Legal (IML) Nina Rodrigues, da Bahia, nem sequer há o registro de entrada do corpo de Iara no necrotério.
 
Além disso, o corpo de Iara tornou-se ‘presa’ para capturar Carlos Lamarca, na época seu companheiro, militante juntamente com Iara em várias organizações, e só foi divulgada a morte dela após Lamarca ter sido localizado morto no interior da Bahia. Iara Iavelberg, possui uma história de vida de resistência e de militância em diversas organizações de extrema esquerda, porém, infelizmente muitas vezes sua trajetória é reduzida ao fato de ter sido companheira de Lamarca - redução, inclusive reproduzida pela esquerda, que o filme ajuda a desconstruir, mostrando a firmeza militante de Iara e suas qualidades de liderança política.
 
Reconhecer o fundamental papel feminino nas lutas de resistência à ditadura, e como esse fato foi transgressor da ordem patriarcal, é um exercício fundamental para dar visibilidade a trajetória de vida das mesmas e também as lutas travadas à séculos por mulheres, contra as opressões e explorações sofridas.
 
*Correspondente de Brasília do Blog Esquerda Diário