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Clipping

16/11/2013 às 08:02

Cinema pernambucano: para brasileiro e gringo ver

Escrito por: Redação
Fonte: Veja (Assinatura)

Impulsionada por trabalhos autorais, aplaudidos em festivais dentro e fora do Brasil, produção do estado cresce e se torna alternativa a onda de comédias comerciais que domina o circuito atualmente

Alguns anos após o nascimento do movimento musical mangue beat, que explodiu no início da década de 1990 em Recife, Pernambuco, outro cenário cultural começou a tomar forma na cidade, estimulado pelo ambiente criativo insuflado por bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Com o ritmo do mangue na trilha sonora, o filme Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, decretou o nascimento de um novo cinema pernambucano. Hoje, quase 20 anos depois, a produção pernambucana se consolidou em torno de filmes autorais feitos com olhar sensível e sem maneirismos, que exploram questões nacionais e universais, como a amizade, o desajuste existencial, a inadequação social e a solidão - fazendo uso da máxima seguida por Chico Science, de ser local para ser global.

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"O cinema de Pernambuco é, acima de tudo, um cinema brasileiro que quer dialogar não só com o estado, mas com o país e com o mundo", diz o produtor João Vieira Jr., um dos donos da REC, produtora de Recife responsável por títulos como Cinema, Aspirinas e Urubus (2003) e Tatuagem (2013), em cartaz a partir deste final de semana no país, depois de se tornar o longa mais comentado do ano nos principais festivais do Brasil. Entre eles, o de Gramado, onde conquistou três prêmios: os de melhor filme, melhor ator para Irandhir Santos e melhor trilha sonora para o DJ Dolores, outro fruto do mangue beat. O diretor da produção, Hilton Lacerda, aliás, começou a carreira por trás das câmeras dirigindo vídeoclipes de bandas do movimento.

O diálogo com exterior tem dado certo também, e inclusive antes do diálogo interno. Sem esconder o DNA regional, presente no sotaque e na cultura local mostrada nos longas, as produções pernambucanas ultrapassaram as fronteiras para pousar com certo louvor em solo estrangeiro. Cinema, Aspirinas e Urubus, estreia do diretor Marcelo Gomes, foi ovacionado no Festival de Cannes 2005, onde ganhou o prêmio de Educação Nacional. "O longa foi selecionado pelo Ministério da Educação da França para ser exibido em escolas", conta Vieira.

E O Som ao Redor (2012), estreia do crítico Kleber Mendonça Filho na direção, tanto se saiu bem no Festival de Gramado como caiu nas graças da crítica estrangeira. Especialmente do jornalista A. O. Scottt, do jornal The New York Times, que colocou o filme entre os dez melhores do ano. Os elogios impulsionaram o longa, que em seguida foi eleito o melhor longa latino-americano pelo júri do Prêmio Cinema Tropical, realizado em Nova York, e escolhido pelo Ministério da Cultura como o candidato oficial do Brasil a uma vaga entre os indicados ao Oscar em 2014, na categoria de melhor filme estrangeiro.