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Clipping

04/01/2016 às 15:29

Com mercado em expansão, editora recria clássicos literários em quadrinhos

Escrito por: Bruno Pavan
Fonte: Brasil de Fato

O livro Cânone Gráfico Volume 2, de Russ Rick, tem adaptações que vão de Edgar Allan Poe a Jane Austin; brasileiro é ilustrador de Crime e Castigo, de Dostoiévski

Lembra quando você era criança e pedia para seus pais comprarem um novo gibi na banca? Os anos passaram, as histórias em quadrinhos (HQ) tomaram novo rumo e não são mais coisa só da infância. Aproveitando este mercado em expansão, o selo Barricada, da Boitempo Editorial, lançou no Brasil o Cânone Gráfico Volume 2 que traz adaptações de clássicos da literatura mundial para HQ.
 
O projeto foi desenvolvido pelo artista norte-americano Russ Rick e contém histórias que vão desde Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, a Assim falou Zaratrusta, de Friedrich Nietzsche. A editora responsável pelo selo, Bibiana Leme, aponta que um dos desafios para retratar obras literárias em HQs é que as imagens “completam lacunas”, que não são preenchidas com o texto original.
 
“Assim como existe o cinema, o teatro, a adaptação de uma obra literária na forma de quadrinhos é uma reinterpretação em linguagem própria. Não substitui a leitura, mas a complementa, traz uma interpretação pessoal”, explicou. 
 
Ela cita o exemplo da adaptação de Alice no País das Maravilhas na qual a personagem principal é negra. “Como diz Russ Rick, os livros de Alice não têm descrições da aparência da menina e acabamos tendo a ilusão de que ela é descrita porque nos acostumamos com as ilustrações de John Tenniel e a adaptação da Disney, o que também é uma influência de se ter a ilustração junto com o texto, em duas camadas de leitura, mas que nem percebemos mais por estar tão arraigada”, apontou.
Outro exemplo de adaptação é a do drama Crime e Castigo, de Fiodor Doistoiévsky. O brasileiro Kako foi o escolhido por Russ Rick para ilustrar o clássico. Pela dificuldade de contar uma história tão densa em quadrinhos, ele conta que preferiu fazer uma espécie de “trailer” do livro.
 
“Tentar explicar os pontos temáticos de um livro como esse seria loucura. Ele é difícil de digerir. Por isso escolhi a sequência principal, o assassinato da velha agiota, com cortes paralelos para o sonho do cavalo a fim de criar uma atmosfera mais interessante e não apenas ilustrar a sequência da história original, ação por ação. Só faltou uma trilha sonora, mas aí fica a cargo do leitor”, explicou.
 
Mercado em expansão
 
De acordo com levantamento de Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o mercado editorial brasileiro faturou R$ 5,3 bilhões em 2013 e cresceu 1,52% na comparação com o ano anterior. Bibiana Leme aponta que o mercado de quadrinhos vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil e se fortalece, tanto dentro das editoras e livrarias independentes, quanto em iniciativas como “crowfunding” [financiamento coletivo].
 
“Toda uma nova janela que se abriu para tratar de quadrinhos como uma forma de narrativa própria. Outro ponto a se destacar quando se fala no
mercado de HQs brasileiro é que há cada vez mais mulheres se dedicando a isso, seja na parte de criação, seja na parte de edição, divulgação e, especialmente, apreciação. Isso, pra mim, é um sinal de que os quadrinhos definitivamente extrapolaram fronteiras”, comemora.
 
Para o ilustrador Kako, a tendência pode abrir novas experiências de leitura para as crianças e adolescentes e afastar a ideia de que ler os clássicos é algo obrigatório e chato. Ele reforça a necessidade de que os jovens tenham incentivo para ler dentro de casa.
 
“Essas adaptações dos clássicos para quadrinhos são fundamentais dentro deste processo, pois são ótimos instrumentos de transição de uma leitura básica para uma literatura mais avançada. Eu acredito que quando apenas a escola apresenta a leitura como atividade, as crianças tendem a encará-la como 'trabalho' e não como prazer, possivelmente se distanciando dela para o resto de suas vidas, tornando-se eventualmente adultas sem este hábito comum de leitura”, avaliou.