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Clipping

03/01/2014 às 07:02

Docs premiados, como 'Pussy Riot' e 'The square' sofrem censura em seus países-tema

Escrito por: Redação
Fonte: O Globo Online

'Pussy Riot - A punk prayer', por exemplo, é um dos 15 filmes selecionados como possíveis indicados ao Oscar de melhor documentário

NOVA YORK - Maxim Pozdorovkin acreditava que, assim que passasse pelo aeroporto de Moscou, estaria em casa, livre. Pozdorovkin é o diretor, ao lado de Miker Lerner, do documentário "Pussy Riot - A punk prayer" e, depois que duas integrantes do grupo ativista russo foram libertadas da prisão, em dezembro, uma sessão do filme foi agendada para sua terra natal, a Rússia. Era para ser a primeira exibição de "Pussy Riot" no país, e a primeira vez em que as duas integrantes, Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova, assistiriam ao documentário, que traça a história de como elas passaram de artistas pouco conhecidas a rebeldes políticas famosas em todo o mundo.

Porém, horas após Pozdorovkin chegar à Rússia com cópias de seu filme escondidas na bagagem, o Ministério da Cultura ordenou o cancelamento da sessão, que seria realizada no último domingo, no Gogol Center, um cinema financiado pelo Estado. A explicação, dada numa carta que o diretor do teatro publicou na internet, foi que a mensagem anti-Kremlin da obra não poderia ter abrigo num prédio do governo e que também não haveria mérito cultural nela. A arte, escreveu o diretor, deveria servir para melhorar o mundo, uma categoria na qual o Pussy Riot não se enquadraria.

Acontece que "Pussy Riot - A punk prayer" é um dos 15 filmes selecionados como possíveis indicados ao Oscar de melhor documentário. E, apesar de fazer parte de uma lista que inclui histórias de família e outras sobre esportes, o filme de Pozdorovkin e Lerner não foi o único que gerou reações internacionais por suas mensagens de tons políticos - o que serve como uma lembrança de que, por trás de toda a pompa do Oscar, o prêmio pode ajudar a jogar luz sobre assuntos densos, alguns envolvendo tensões e ameaças de morte ao redor do mundo. Várias mudanças políticas e sociais se desenrolam em torno desses filmes, às vezes em tempo real.

A proibição de "Pussy Riot" rapidamente levou a um debate caloroso na Rússia: Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova já estavam sob holofotes quando sua sentença de prisão de dois anos, pela performance de uma canção de protesto dentro de uma catedral de Moscou, foi inesperadamente reduzida pelo Kremlin. Sua liberação poderia representar uma conclusão perfeita para o filme, exceto pelo fato de que a história das moças ainda terá novos capítulos.

Da mesma forma, "The square", documentário sobre os protestos na Praça Tahrir, no Cairo, também trata de uma história em continuidade. O filme foi refeito diversas vezes entre 2011 e 2013, pela tentativa de sua diretora, Jehane Noujaim, de manter atualizada a história dos protestos de seu Egito natal. A versão final ganhou diversos prêmios no circuito de festivais de cinema, incluindo um no Festival de Dubai, em dezembro, mas ainda tem dificuldade para ser exibida no Oriente Médio. Há menos de um mês, sua exibição numa mostra no Cairo foi cancelada no último instante.

Os organizadores da mostra explicaram que "conseguir uma permissão para exibir o filme foi muito difícil". Eles dizem que até conseguiram a carta que garantia a projeção, mas que não teriam recebido a versão traduzida para o árabe a tempo - o que levou alguns egípcios a especularem que essa desculpa foi apenas uma maneira de acobertar a pressão do governo.

- O filme ainda está sob censura, não tivemos uma permissão oficial para lançá-lo no Egito. E uma questão a ser discutida é a razão de ainda existir censura num país que acaba de passar por uma revolução - disse Jehane, numa entrevista em dezembro.

Anonimato na Indonésia

Outro que teve problemas em seu país foi "O ato de matar". O documentário, sobre os esquadrões da morte da Indonésia, está disponível para download no país desde setembro. Seu diretor, Joshua Oppenheimer, escreveu em seu site: "Nós queremos que você exiba o filme, que o distribua para amigos pelo arquipélago. Eu fiz este filme com a colaboração de mais de 60 anônimos indonésios que, como você, quiseram conhecer a verdade sobre sua história e entender como a impunidade por atrocidades passadas sustenta um regime de corrupção, crime e terror".

Mas, mesmo com os prêmios que o documentário vem acumulando em festivais, o codiretor de "O ato de matar" ainda precisa permanecer anônimo por medo de represália.

Até mesmo filmes da lista do Oscar feitos em solo americano enfrentaram oposição. O documentário "Blackfish", por exemplo, sobre o perigo potencial de manter orcas em cativeiro, recebeu respostas contundentes do Sea World, a empresa proprietária do parque temático onde uma orca matou uma treinadora em 2010.

Na corrida pelo principal prêmio do cinema, esses filmes têm a concorrência de obras comparativamente mais leves, como "20 feet from stardom", um sucesso de público sobre cantoras de apoio; "Cutie and the boxer", um retrato sensível sobre um casal de artistas em Nova York; e "Stories we tell", uma investigação feita pela atriz-diretora Sarah Polly acerca de sua própria família. A Academia irá divulgar os cinco nomeados para melhor documentário, juntamente com as outras categorias, em 16 de janeiro.