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Clipping

15/06/2015 às 15:40

Editorial da Folha de S. Paulo: a bobagem dos 'liberais' 26 anos depois

Escrito por: Dennis de Oliveira
Fonte: Revista Fórum

O jornal Folha de S. Paulo pretende ser o porta voz de uma visão liberal 'moderninha'

Em editorial publicado no domingo, dia 14 de junho, o jornal “Folha de S. Paulo” faz duras críticas ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, em especial a linha conservadora e fundamentalista que vem adotando e fortalecendo no parlamento. A frase mais forte do diário paulistano é  “Há espaço para que o Legislativo comece a transformar-se numa espécie de picadeiro pseudorreligioso, onde se encenam orações e onde se reprime, com gás pimenta, quem protesta contra leis penais duras e sabidamente ineficazes”. Leia mais a respeito clicando aqui.
 
Semana passada, o humorista Gregorio Duvivier em entrevista a Fórum (clique aqui para ler), faz uma análise interessante do conservadorismo em voga no Congresso Nacional. Ao mesmo tempo que defende a plena liberação do mercado, a restrição de qualquer controle público sobre o capital, esta mesma direita quer regular aspectos da vida privada dos seres humanos, como orientação sexual, aborto, entre outros. É a união perversa do liberalismo econômico com o moralismo conservador sob a batuta do fundamentalismo religioso.
 
O jornal Folha de S. Paulo pretende ser o porta voz de uma visão liberal “moderninha”. Isto está expresso não apenas nos seus documentos oficiais, como o seu Manual Geral da Redação, mas pelo próprio perfil dos seus principais dirigentes. Muitos deles são oriundos de uma geração de jovens que militaram contra a ditadura no movimento estudantil em organizações de esquerda, como a antiga Liberdade e Luta (Libelu, hoje corrente O Trabalho, abrigada no PT), AP (Ação Popular), entre outros. Em maior ou menor grau, aderiram as teses liberais e neoliberais, mas não escondem uma preferência pelo protagonismo de intelectuais que aderiram a esta ideologia. Defendem uma maior justiça social, mas sem o protagonismo destes setores na sua condução. De uma forma ou de outra, as mudanças – ainda que não tão intensas – nos últimos anos que possibilitaram que parcela da população mais pobre ascendessem ao consumo e pudessem frequentar shoppings centers, aeroportos, universidades, etc e também engrossassem o universo da esfera pública incomodou esta turma. Não é a toa que este jornal costuma destacar projetos, privados na sua maioria, que mudam o cenário das periferias, mas que mantenha o pessoal na própria periferia ou, no limite, sob a tutela de alguma ONG ou instituição benemérita (como, por exemplo, os projetos do Aprendiz, liderados por um jornalista ligado à Folha, Gilberto Dimenstein).
 
Mas a Folha de S. Paulo não é uma coisa a parte. Ela representa um certo setor ideológico da sociedade brasileira. Um setor que aspira um liberalismo no modelo europeu (ou norte-americano, no padrão dos “democratas”) e que se sente incomodado ao verificar que a direita brasileira sempre tende a esta perspectiva ultraconservadora e moralista. Há 26 anos atrás, parcela desta direita, com medo do PT e de Lula, votou em Collor (que representava um pensamento não muito distante de Cunha e sua turma). Deu no que deu. Fracassando na tentativa de catapultar o PSDB como o partido que represente os seus interesses (apesar deste partido estar visivelmente caminhando cada vez mais para esta direita), após a quarta vitória do PT, demonstraram entusiasmo com a derrota do PT no comando da Câmara. Eduardo Cunha seria a redenção. E o jornal Folha de S. Paulo não esconde que teve esta esperança no seu editorial, ao afirmar que o ativismo do presidente poderia sinalizar para um maior protagonismo do Legislativo, situação aliás que não é cobrada no estado de S. Paulo em que a bancada governista tucana impõe um rolo compressor na Assembléia Legislativa).
 
Mas esta turma não tem o perfil do Fernando Henrique Cardoso. Não é o poeta Ferreira Gullar, convertido ao neoconservadorismo. Ou o sociólogo José Guilherme Merchior. Ou mesmo Demétrio Magnolli, ex-Libelu e hoje candidato a intelectual orgânico da direita. Ou muito menos Vaclav Havel, que conduziu o fim da República Socialista da Tchecoslováquia. É Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Jair Bolsonaro e companhia. É com isto que os liberais contam. Mais que isto, estão aí porque estes mesmos liberais moderninhos criaram um cenário em que tais idéias se fortalecessem. O moralismo cresce como perspectiva justamente quanto o debate político racional reflui e não há como não responsabilizar a cobertura denuncista, moralista e apelativa da mídia hegemônica como uma das principais responsáveis por isto.