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Clipping

14/07/2014 às 17:36

Encontro em São Paulo tenta reinventar o gênero policial na literatura brasileira

Escrito por: Mário Bentes
Fonte: Jornal GGN

Os novos autores brasileiros de literatura policial ainda estão presos à ideia de chocar os leitores com descrições clichês de “mundo cão”: favela, tráfico de drogas e menores abandonados. A opinião é do jornalista e escritor do gênero, Sérgio Pereira Couto, que organiza, há alguns anos, em São Paulo, o Clube de Leitura Policial com a finalidade de manter um fórum permanente sobre o tema e apresentar novos títulos estrangeiros e até mesmo séries de tevê sob o gênero.

Com dupla nacionalidade (brasileira e portuguesa), o autor de 47 anos e 42 títulos lançados – sendo oito de ficção e outros 34 de não-ficção – não acredita que haja, entre o grande público, uma visão preconceituosa em relação ao gênero policial, com exceção do “meio acadêmico, que ainda o considera um gênero B”. Mas ele afirma que a categoria, ao menos no Brasil, ainda precisa de incentivo e de uma mudança de paradigma.

“No Brasil, [o gênero policial] ainda precisa de muito incentivo, já que brasileiro insiste em escrever apenas sobre tráfico de drogas, favela e menor abandonado. E ainda quer usar as paisagens das grandes metrópoles nacionais de maneira errada. Enquanto isso a produção nórdica europeia vai conquistando o público por deixar de lado as fronteiras e para falar em linguagens bem mais universais”, explica.

Quando fala de falta de incentivo, Sérgio Pereira Couto refere-se às editoras brasileiras, que ainda permanecem com o pé no freio quando se fala em produção nacional de literatura policial. “Salvo alguns poucos casos, a maioria esbarra no mesmo problema de sempre: falta de incentivo das editoras nacionais em comprar e incentivar a produção nacional”, diz o autor, que volta a tocar no que considera uma falha dos autores para a falta de incentivo: o clichê.

“Também porque o escritor nacional insiste em escancarar com cenas de sexo e drogas de maneira a esbarrar na velha fórmula do ‘mundo cão’, ou seja, eles querem criar choque nos leitores sendo o mais vulgar possível”. Ele cita um caso de um escritor novato que fez uma mistura de crime histórico usando toques do best-seller “50 Tons de Cinza”. Para Couto, houve tanto exagero nas cenas de sexo que o livro “denegriu a imagem da mulher moderna”.

Fórum permanente de ideias

E é justamente como forma de incentivar a produção e ampliar as possibilidades temáticas para novos autores que o autor luso-brasileiro mantém em constante atualização o Clube de Leitura Policial. A próxima edição do evento acontece neste sábado (19), na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista, a partir das 16h. Na agenda desta edição, está previsto um debate do uso da tecnologia no cotidiano policial.

A atividade começou como um evento isolado, há alguns anos, quando o autor fora contratado pela Prefeitura para ministrar cursos de introdução á literatura policial. “Com o tempo vi que havia uma necessidade grande de haver um fórum, uma mesa de debates permanente, onde os escritores novatos pudessem entender melhor como funciona o esquema de montagem de uma história desse tipo”.

Além disso, o interesse do público e o crescente interesse o levaram a esquematizar um clube de leitura. Depois de avaliar o que já era feito pelas editoras, o autor optou por fugir do esquema tradicional de gincanas e prêmios e abordar a parte técnica, estrutural das histórias policiais, unindo a apresentação de novos títulos do exterior.

“Encontrei um livreiro da Saraiva que já organizava um clube de leitura de alto nível. Apresentei o projeto e logo fui chamado para apresentar um piloto, por assim dizer, que foi muito bem recebido. E então combinamos que, por enquanto, poderíamos realizar um encontro por mês, sempre misturando os livros enfocados com um pouco de história do gênero, curiosidades, convidados e, claro, a exibição da produção europeia de seriados inéditos nas tvs a cabo”.

Alta receptividade

Se para o meio acadêmico literário o gênero policial não é bem visto, o mesmo não acontece com o público, cada vez mais ávido por novos títulos. A constatação veio a partir das duas primeiras edições do clube, em maio e junho passados. E, além da terceira edição deste sábado, já estão confirmadas as edições de agosto, antes da Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

“O evento costuma receber por volta de 40 a 60 pessoas por edição, todos com os inevitáveis brindes ao final de cada encontro, e muita gente se interessa em adquirir não apenas os meus livros, mas também os indicados nos encontros. Debatemos sempre um tema comum aos dois livros de destaque: de detetives inusitados ao uso da tecnologia no dia-a-dia policial, dos romances estrangeiros passados nos Estados Unidos por aurores não americanos até as diferenças de um policial e um thriller de mistério”.