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Clipping

17/12/2013 às 10:02

Enquanto São Paulo investe em cinema, Florianópolis dá um passo atrás em 2013

Escrito por: Redação
Fonte: Diário Catarinense

Colunista Ivo Müller entrevista Mauro Baptista Vedia, membro da diretoria da Associação Paulista de Cineastas (Apaci), sobre a nova empresa de audiovisual do município paulista, a SP Cine

Um dos temas deste espaço é o cinema. Em novembro falamos sobre a primeira Film Commission catarinense, em Balneário Camboriú. Mais ou menos na mesma época, foi aprovada na Câmara de Vereadores de São Paulo o projeto da SP Cine, a Empresa de Cinema e Audiovisual da cidade. O lançamento, feito em outubro, uniu a Agência Nacional do Cinema (Ancine), prefeitura e governo do Estado de SP, três esferas governamentais em torno de um projeto. O objetivo da SP Cine é fomentar a produção, distribuição e exibição do audiovisual produzido no município.

Conversei com o cineasta Mauro Baptista Vedia, membro da diretoria da Associação Paulista de Cineastas (Apaci), atuante em todo o processo de criação da nova empresa. Vedia é doutor pela USP e seu primeiro longa-metragem, Jardim Europa, estreou no Festival Latino-Americano de Cinema de 2013 e deve entrar em cartaz no próximo ano. É também diretor de teatro e autor do livro indicado ao prêmio Jabuti, O Cinema de Quentin Tarantino (Editora Papirus, 2010).

Qual a importância da SP Cine no cenário atual do cinema brasileiro?
A criação da SP Cine terá uma importância fundamental para o cinema nacional, já que vai fomentar e distribuir o audiovisual realizado em São Paulo, Estado que concentra 36% do PIB brasileiro, o maior parque exibidor, portanto a maior quantidade de salas, a maior quantidade de produtoras e laboratórios.

A RioFilme existe desde 1992. Por que São Paulo ainda não tinha uma empresa desse tipo?
Há razões históricas e culturais que explicam em parte isso. O cinema do Rio de Janeiro sempre se colocou como cinema nacional, nacional e popular, e o cinema de São Paulo sempre teve uma atitude diferente, dificuldade para se colocar como cinema nacional e como cinema popular (Mazzaroppi é uma exceção e parte dos filmes de Hector Babenco também). Em geral tem sido um cinema mais de província, um cinema mais de contestação e de pesquisa de linguagem, um cinema mais autoral. Há alguns grandes filmes que conseguem dialogar com o público e serem sofisticados em termos estéticos, mas têm sido exceção (Pixote e Lúcio Flávio, de Hector Babenco; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; São Paulo S.A., de Luiz Sérgio Person; e O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla). Além disso, o cinema em São Paulo nunca foi visto pela esfera política como uma prioridade. A cidade tem um problema grande de autoestima, mas tudo começou a mudar nos últimos anos. Agora tem muita gente que tem orgulho de morar em São Paulo, e a diversidade cultural da cidade é extraordinária.

Fala-se muito da concentração de filmes feitos entre RJ e SP. Como você acha que a SP Cine pode fortalecer o cinema nacional, inclusive o cinema feito em outros Estados?
A SP Cine certamente vai permitir que o cinema paulista tenha uma presença muito forte no cinema brasileiro, algo que não é o que acontece ultimamente, a produção é pequena em relação à megalópole que São Paulo é. E a presença no mercado é irrisória, as grandes bilheterias são 98% cariocas. Nesse sentido, acredito que a SP CINE possa permitir que um cinema brasileiro esteticamente mais sofisticado tenha uma presença muito mais forte no cenário mundial. Em termos de coprodução com outros Estados, acredito que a SP Cine será, sim, de enorme ajuda.

* * *

Em Florianópolis não houve edital do Fundo Municipal de Cultura, nem o edital de cinema do Funcine em 2013, os poucos mecanismos que temos, mas conquistados há bastante tempo. Caminhamos para trás. O atual governo municipal até criou uma Secretaria de Cultura (separada de outras áreas como Esporte ou Turismo, como ainda acontece no âmbito estadual), mas a cada mudança de gestão as políticas públicas já conquistadas são interrompidas. É como asfixiar aos poucos, pelo menos por aqui, um setor que só se expande em todo o país.