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Clipping

26/01/2018 às 21:41

Foco dos jornais não é condenar Lula e sim mantê-lo inelegível

Escrito por: Ana Claudia Mielke
Fonte: Carta Capital / Intervozes

Após julgamento, veículos criminalizaram resistências e usaram discurso econômico para legitimar condenação junto à opinião pública

Lendo os editoriais e as notícias dos principais jornais do Brasil nestes últimos dias, fica difícil acreditar no argumento da diversidade e pluralidade na mídia brasileira, que os proprietários destes meios costumam defender por aí. Afinal, todos eles atuaram em uníssono na defesa da condenação do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal 4, em Porto Alegre, e pela inviabilidade de sua candidatura.
 
Mas não basta escrever textos eloquentes, é preciso impedir a resistência e convencer os indecisos e, para isto, pelo menos duas estratégias têm sido adotadas pelos jornais: a criminalização da resistência, sob o argumento de que esta politizou o debate, e o convencimento da opinião pública a partir de uma suposta estabilização da economia. 
 
Na manhã da quinta-feira, dia 25 – day after do julgamento – o que mais chamou atenção nas notícias apresentadas pelos jornais foi o fato de eles terem dedicado parte significativa de seus espaços para discutir os desdobramentos da condenação do ex-presidente Lula para a corrida eleitoral de 2018.
 
Explicações sobre a Lei da Ficha Limpa, os caminhos da defesa no uso de recursos pós-julgamento e especulações sobre o posicionamento do Superior Tribunal Eleitoral (TSE) deram o tom das reportagens.
 
O jornal O Estado de S. Paulo foi o que manifestou mais claramente esta posição. Em sua capa traz a manchete “Tribunal aumenta pena de Lula e candidatura deve ser impedida”. O impedimento da candidatura está nas entrelinhas da maioria dos textos, ora apontando que o PT terá que buscar um “plano B” se quiser de fato ter candidato disputando as eleições presidenciais em 2018, ora reforçando e explicitando detalhes técnicos sobre a Ficha Limpa, que pode inviabilizar a candidatura de Lula.
 
A colunista Eliane Cantanhêde chegou a ironizar a possibilidade de Lula ser candidato ao dizer “Lula não tem a mínima condição de se candidatar nem a ministro do Trabalho na vaga da deputada Cristiane Brasil, quanto mais a presidente”, no texto Candidatura Lula, uma ficção, publicado no Estadão desta quinta-feira, 25.
 
Conhecida por seus comentários ácidos – e muitas vezes equivocados – nos jornais da Globo News, Cantanhêde é a mesma que, em 2016, quando comentava as manifestações que pediam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, afirmou que “ali estavam os verdadeiros brasileiros” numa contraposição propositada aos manifestantes que defendiam o mandato da ex-presidente – considerados por ela menos legítimos por serem militantes de partidos de esquerda ou de movimentos sociais e usarem camisetas vermelhas.
 
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O debate sobre as eleições 2018 também deu o tom da cobertura de O Globo. A manchete de capa trazia “Condenação unânime esvazia candidatura de Lula ao Planalto”. Parte desta ideia foi enfatizada na página 3 do jornal, onde matérias destacam  que Lula “sofreu ontem [dia 24] o maior revés de sua trajetória política” e que “aumenta a incerteza sobre as eleições de outubro”.
 
Foram várias as considerações sobre os desdobramentos do resultado do julgamento sobre as eleições presidenciais. O colunista Lauro Jardim diz que “a candidatura de Lula sofreu um tiro no peito. Seu protagonismo na eleição, não”. Miriam Leitão diz que “se a justiça eleitoral for lenta, leniente ou falha”, permitindo que Lula, um réu, seja candidato, “o país estará em situação perigosa”.
 
Ambos deixam evidente que haverá pressão por parte de alguns setores para que a candidatura de Lula seja totalmente inviabilizada, embora a própria Lei da Ficha Limpa ainda mantenha possibilidades de recursos e que seja o TSE, o responsável por deferir ou não a inscrição da chapa em 15 de agosto deste ano.
 
Um dia antes, 24 de janeiro, o jornal O Globo trazia em seu interior opiniões de alguns possíveis presidenciáveis como Geraldo Alkmin (PSDB), João Doria (PSDB), Michel Temer (PMDB) e Henrique Meirelles (PSD), que afirmavam preferir derrotar Lula nas urnas. Nenhum deles, no entanto, questionava o processo jurídico que culminou na condenação de Lula pelo Juiz Sérgio Moro. Em outras palavras, a realidade é que ninguém quer enfrentar nas urnas um candidato que já se apresenta com mais de 40% das intenções de voto.
 
Na mesma linha, a Folha de S.Paulo trouxe manchete “Unânime, tribunal condena Lula, eleva pena e dificulta candidatura”, na edição do dia 25. Diferentemente dos demais jornais, no entanto, que usaram os editoriais apenas para celebrar a condenação de Lula, a Folha admite que haverá empobrecimento da disputa eleitoral em 2018 em função da ausência do ex-presidente.
 
Criminalizar a resistência
 
Discursos políticos bem escritos não são, no entanto, suficientes para retirar Lula do páreo. E justamente por isto, os jornais têm buscado investir na estratégia de criminalizar a resistência.
 
Na véspera do julgamento, dia 24, o jornal Folha de S.Paulo criticou, no editorial a politização do julgamento por parte de Lula, do PT e de militantes e afirmou existirem evidências da culpa de Lula: “O líder petista, que misturou a defesa de sua biografia e a pretensão de candidatar-se novamente à Presidência, insufla a militância com a tese tresloucada de que é vítima de uma conspiração tramada pelas instituições jurídico-policiais e pela imprensa”, disse o jornal.
 
O Estado de S.Paulo seguiu na mesma linha. Na edição do dia 24, além de defender a condenação em seu editorial, o jornal trouxe uma matéria intitulada “Petista aumenta o tom de enfrentamento”, em que praticamente acusa o PT e sua militância de estarem incitando a violência no país. No mesmo dia, O Globo ataca a militância, característica do lulopetismo, destacando as supostas “ameaças” de Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, que fizeram recentes discursos subindo o tom contra a condenação de Lula.
 
Esta perspectiva se seguiu nesta sexta-feira, dia 26. O Estado de S.Paulo, por exemplo, trouxe um seu editorial “Lula passa dos limites”, um discurso que criminaliza quem discorda de todo o processo jurídico que culminou na condenação do ex-presidente.
 
Esta criminalização se estende por matérias como “PT fala em desobedecer à decisão do TRF” e em análises como “Radicalização contraproducente e o ‘blefe’ de Lindbergh”, assinada por David Fleischer.
 
O jornal utiliza a tese desenvolvida pelo juiz Sérgio Mouro, de que Lula “recebeu vantagens indevidas” (embora esta esteja baseada em “atos de ofício indeterminados”, como consta nos autos) como se esta fosse inquestionável.
 
E apresenta o Sistema de Justiça como locus imparcial e técnico, acima de qualquer suspeita. Algo que vai na contramão da ideia de “politização do judiciário”, sob a qual tem se debruçado inúmeros cientistas políticos.
 
Ao que tudo indica, os jornais têm buscado inverter a agulha que aponta para a politização do processo, acusando os que defendem o direito de Lula ser candidato em 2018 de não respeitarem decisões tomadas dentro do Estado Democrático de Direito.
 
Desconsideram, no entanto, que esta suposta democracia foi posta à prova há dois anos, quando por força da politização de um processo jurídico – denunciada à época pelos que hoje os jornais criminalizam – houve a derrubada da ex-presidente Dilma Rousseff.
 
Se manter Lula fora do jogo eleitoral é o objetivo final, a possibilidade de prisão do ex-presidente não pode ser descartada. E assim, todos os jornais já trouxeram, entre as matérias publicadas nesta quinta-feira, 25, argumentos prós e contra à prisão.
 
Em O Globo foram inúmeros os trechos de falas dos desembargadores e opiniões de advogados criminalistas e ministros do STF sobre a prisão ou não de Lula, com destaque para a manchete “Desembargador diz que pena deve ser cumprida logo após recurso”, em que se defende a prisão imediata do ex-presidente.
 
Convencendo os indecisos
 
Os últimos dias mostraram que outra estratégia dos jornais – e isto envolve também os televisivos – tem sido utilizada para garantir o engajamento da opinião pública, sobretudo, daquela parte da população menos interessada no hard drive da política e, que, geralmente vota com o bolso e não com a cabeça.
 
Visando estabelecer uma ponte com aquele eleitorado que geralmente opta pelo chamado “voto econômico”, os jornais usaram e abusaram do argumento de que a condenação de Lula é boa para estabilização da economia.
 
A capa de O Globo, em 24 de janeiro, chama a atenção para a relação entre o julgamento e o mercado financeiro, com a queda da bolsa e a alta do dólar: “Mercado vive tensão antes do veredito”.
 
Na quinta-feira, 25, a capa do jornal trouxe dentre as manchetes, “Mercado financeiro vive dia de euforia”. Folha também relacionou os eventos ao publicar na capa do seu Caderno de Mercado de quinta que “Bolsa sobe e dólar cai a cada voto do julgamento de Lula” e por aí se seguiu.
 
Nas redes sociais tanto Folha quanto Estadão publicaram stories dizendo que o mercado financeiro apostava na condenação e que a bolsa brasileira estava em alta.
 
Matérias nesta linha também foram produzidas pelos jornais televisivos, como na matéria Mercado reage ao julgamento do recurso de Lula que foi ao ar dia 24 de janeiro no Jornal Hoje.
Nela, a repórter Elaine Bast trata o mercado como um ente – político neste caso – que interfere nas decisões institucionais do país.
 
À noite, no Jornal da Globo – também da TV Globo – a matéria “Bolsa volta a bater recorde e dólar cai” busca consolidar o argumento de que o país segue no rumo certo, na política, com os desdobramentos da Lava Jato, e principalmente, na economia.
 
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A centralidade no debate sobre a impossibilidade de candidatura de Lula evidencia que o interesse maior por parte de alguns grupos políticos em torno do julgamento e consequentemente, da condenação, tem por objetivo fim, deixar Lula fora da disputa em 2018. E isto não é nenhuma novidade.
 
Pelo menos não para quem avalia o que aconteceu no país em 2016 como golpe. Afinal, não se infligiria ao país uma crise política/institucional desta magnitude para permitir, ao final, que Lula saísse candidato.
 
A cobertura destes últimos dias reforçou, mais uma vez, que para parte significativa da elite brasileira – da qual, inclusive, fazem parte os jornais – pouco importa a condenação de Lula se esta não se concretizar na eliminação do ex-presidente do jogo eleitoral.
 
A hipocrisia de alguns possíveis candidatos ao dizerem que “preferem derrotar Lula nas urnas” não esconde a preocupação destes com uma candidatura de Lula. Com o julgamento do dia 24, o jogo eleitoral pode até ter ganhado novos players, mas a partida, na qual a imprensa tem atuando ativamente está longe de ser encerrada.
 
*É jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e coordenadora executiva do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Participaram do monitoramento da cobertura do julgamento de Lula os/as militantes do Intervozes: Bia Barbosa, Camila Nobrega, Eduardo Amorim, Helena Martins, Iara Moura, Marcos Urupá, Olivia Bandeira, Ramênia Vieira e Tiago Coutinho.