Receba no seu e-mail

Voltar

Clipping

01/06/2017 às 20:04

Globo pecou na apuração jornalística antes de atacar o BNDES

Escrito por: Cíntia Alves
Fonte: GGN

Versão da Lava Jato de que um agente do BNDES ajudou a beneficiar a JBS com a aprovação de um projeto milionário no prazo recorde de 22 dias não procede, assim como outras informações que agora são esclarecidas pelo banco de desenvolvimento
 
 Com base em uma nota que o BNDES enviou à Rede Globo na semana passada, o GGN já havia apontado fragilidades na reportagem do Fantástico sobre as investigações em curso na operação Bullish, que miram negócios do banco com o grupo JBS (leia aqui). Novas informações lançadas no site da instituição, nesta semana, ajudam a desconstruir um pouco mais a história narrada pela Globo em conluio com a Lava Jato, revelando que a equipe da emissora fez uma apuração jornalística rasa antes de bancar o ponto de vista do Ministério Público Federal.
 
No dia 21 de maio, o programa dominical publicou uma matéria insinuando que a JBS conseguiu parte dos R$ 8,1 bilhões que recebeu de investimentos do BNDES entre 2007 e 2010 porque um funcionário do banco favoreceu o frigorífico.
 
Para não arriscar a validade dessa tese, Fantástico não publicou na matéria que, em delação premiada, Joesley Batista afirmou nunca ter pago um centavo de propina a qualquer agente do BNDES. Ao contrário disso: reclamou da rigidez com que o banco conduzia suas atividades.
 
Em tópicos, a reportagem da Globo ainda pecou ao não apresentar os seguintes contrapontos:
 
1 - Sobre o funcionário suspeito
 
O centro da reportagem do Fantástico é o ex-chefe do departamento de mercado de capitais do BNDES, José Cláudio Rego Aranha, aposentado em 2009. Por cerca de um ano, Aranha acumulou a dupla função de ser funcionário do BNDES e membro do Conselho de Administração da JBS. Nesse posto, emitiu pareceres favoráreis a 3 transações da JBS com financiamento do banco: a fusão com o grupo Bertin, a compra da Smithfield e da National Beef.
 
Fantástico ouviu juristas que falaram de um "possível conflito de interesses" e lembrou que Aranha foi levado coercitivamente para depor quando a operação Bullish foi deflagrada, no início de maio.
 
O que o Fantástico não fez foi deixar claro que o BNDES tem direito a duas cadeiras no Conselho da JBS porque detém cerca de 21% das ações da empresa. Tampouco informou que "diversos outros bancos de desenvolvimento no mundo, dentre os quais o IFC (do Banco Mundial) e o KfW (Alemanha), indicam seus próprios funcionários para compor os colegiados de suas empresas investidas." Na bolsa de valores brasileira, o expediente é o mesmo.
 
Em nota publicada no site do banco, é possível ainda checar que "a indicação pelo Sistema BNDES de seus próprios funcionários para compor os conselhos de administração das companhias investidas está em conformidade com a legislação sobre o tema e com os normativos internos do Banco, além de ser prática usual no mercado de capitais brasileiro e internacional."
 
O banco só passou a indicar conselheiros externos a JBS, chamados de "funcionários independentes" - ou seja, não vinculados AO quadro de técnicos do BNDES - quando Michel Temer assumiu a presidência da República.
 
2 - Sobre os R$ 8,1 bilhões do BNDES à JBS
 
Disse o Fantástico que entre 2007 e 2010, a política de incentivos do BNDES, hoje questionada pela Lava Jato, permitiu que R$ 8,1 bilhões fossem injetados na JBS. A reportagem não apurou que esse valor, considerado exorbitante pela força-tarefa, representa apenas 2% do total de desembolsos do BNDES no período (R$ 460,5 bilhões). 
 
Segundo esclarecimentos do BNDES, os R$ 8,1 bilhões ainda estão divididos da seguinte maneira: R$ 5,6 milhões estão relacionados à "aquisição de ações e debêntures mandatoriamente conversíveis em ações" e outros R$ 2,5 bilhões foram para a Bertin, antiga "concorrente da JBS, mas que foi posteriormente incorporada por ela."
 
A reportagem também ignorou outras operações do BNDES junto à JBS:
 
- Em 2005, BNDES emprestou à JBS o equivalmente a 80 milhões de dólares, para a compra da argentina Swift Armour. A JBS já quitou essa dívida;
 
- Em 2007, a BNDESPAR subscreveu 13% do capital da companhia aportando R$ 1,1 bilhão para a compra da Swift americana;
 
- Em 2008, a BNDESPAR participou de novo aumento de capital da JBS para a aquisição das americanas Smithfield, Five Rivers e National Beef, com aproximadamente R$ 1 bilhão;
 
- Em 2009, foram subscritas debêntures conversíveis em ações da JBS no valor de R$ 3,5 bilhões para a compra da Pilgrim´s americana e a incorporação da Bertin (que já tinha recebido R$ 2,5 bilhões anteriormente).
 
3 - Sobre a proposta aprovada em 22 dias
 
Na versão da Globo, a Lava Jato levantou 2 suspeitas envolvendo a compra de empresas americanas com apoio do BNDES. Em 2008, a JBS teria conseguido R$ 996 milhões para aquisição da Smithfield, Five Rivers e National Beef. O governo dos EUA, por protecionismo, vetou a compra da National Beef. 
 
O Fantástico destacou que (1) o BNDES teria aprovado esse aporte em 22 dias e (2) o dinheiro que deveria ser aplicado na compra da Natural Beef (cerca de R$ 624 milhões) nunca foi devolvido. Não explicou os porquê. 
 
Segundo o BNDES, a BNDESPAR autorizou que os recursos aportados fossem utilizados para a compra de outras empresas do setor pela JBS.
 
Além disso, a história de que, por interferência do "agente duplo" José Cláudio Rego Aranha, a aprovação do financiamento teria saído em 22 dias, não procede. "A BNDESPAR começou a analisar a possibilidade de investir no capital acionário da JBS em março de 2006. A primeira operação só foi aprovada pela Diretoria em 26 de junho de 2007. As demais operações, realizadas quando a BNDESPAR já era sócia da JBS, tiveram prazos de negociação e análise entre quatro e seis meses."
 
Mais informações sobre a relação da JBS com o BNDES estão disponíveis aqui.