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Clipping

26/09/2014 às 06:32

Google e Microsoft mapeiam favelas do Rio em busca de novos usuários

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

Por décadas, as favelas, que abrigam quase 25% da população do Rio de Janeiro, não existiam nos mapas. As autoridades consideravam os assentamentos informais uma aberração perigosa e se recusavam a enviar cartógrafos ou registrar endereços oficiais. Então, moradores frustrados começaram a mapear a comunidade por conta própria, na esperança de pressionar as autoridades para fornecer mais serviços públicos.

Agora, essas iniciativas estão sendo alavancadas por duas das maiores empresas de tecnologia do mundo. O Google Inc. e a Microsoft Corp. começaram, nos últimos meses, a mapear várias favelas cariocas.

Dependendo basicamente dos grupos comunitários, as empresas planejam mapear tudo, dos becos estreitos e retorcidos até as vendinhas mais modestas.

"O poder de colocar (as favelas) no mapa e dar a elas uma presença on-line é realmente importante para abri-las e integrá-las à cidade", diz Esteban Walther, diretor de marketing do Google para a América Latina.

É também algo potencialmente lucrativo. De fato, alguns grupos locais se queixam que as empresas estão se aproveitando de seus esforços, usando sua base de dados de empresas locais na expectativa de obter lucro.

O que está claro é que as favelas do Brasil, antes associadas principalmente a altos índices de criminalidade, agora representam uma oportunidade econômica.

Nos últimos dez anos, programas sociais e o boom das commodities tiraram dezenas de milhões de brasileiros da pobreza. Mais de 85% dos cerca de 1,5 milhão de pessoas que moram em favelas no país agora têm celulares, e mais da metade usa a internet regularmente, segundo o Google.

Ter acesso a essas pessoas e outros consumidores em ascensão social no mundo em desenvolvimento é fundamental, considerando o amadurecimento dos mercados americano e europeu. As empresas de tecnologia ainda estão desenvolvendo formas de monetizar suas ferramentas de mapeamento, mas atrair usuários de mapas dá a elas uma chance maior de explorar os dados dos usuários, exibir anúncios e vender aplicativos.

"Muitas empresas estão fazendo isso porque sabem que eles (os moradores das favelas) são clientes e não estão mais excluídos do sistema econômico do Brasil", diz Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade, do Rio de Janeiro. "É um bom negócio mapear favelas."

No Rio, a Microsoft está trabalhando com organizações locais e autoridades municipais para mapear duas favelas - Vidigal e Maré -, segundo Lúcio Tinoco, responsável pelo Bing, o motor de busca da Microsoft, no Brasil.

Smartphones em punho, membros da equipe e voluntários de grupos comunitários locais andam pelas ruas da favela, entrando em pontos de interesse - escolas, lojas, padarias - e fornecendo as coordenadas a um banco de dados do Bing.

Tinoco diz que a empresa quer preencher os "buracos negros" com que os usuários de celulares se deparam quando procuram algo nessas localidades. O projeto é bom para os residentes e para os resultados da Microsoft, diz ele. "Trazendo mais usuários on-line, claro que teremos mais anúncios."

A Microsoft planeja mapear cerca de 40 favelas no Rio até o fim do ano e quer expandir o projeto para outros países em desenvolvimento.

O projeto do Google é parecido. Ele está trabalhando em três favelas - Rocinha, Caju e Vidigal - em grande parte com a organização sem fins lucrativos AfroReggae. Usando seus smartphones, voluntários locais empregam o aplicativo do Google MapMaker para fotografar e registrar a localização de empresas. Logo, os dados são transferidos para os mapas do Google.

Mapear as densas e frequentemente acidentadas favelas tem seus desafios. Muitas ruas não têm nomes oficiais, então as organizações locais consultam os moradores. Uma rua na Maré recebeu o nome de um eletricista particularmente habilidoso que morava ali. Em alguns casos, voluntários têm de enviar mediadores para persuadir os traficantes locais a permitir o mapeamento.

O Google e a Microsoft não quiseram revelar quanto estão gastando nos projetos.

Alguns organizadores comunitários acreditam que devem ser bem remunerados pelo seu trabalho de mapeamento. Na favela da Maré, perto do aeroporto do Galeão, a organização sem fins lucrativos Redes da Maré começou um projeto de mapeamento em 2011. Eliana Silva, a diretora, e sua equipe mapearam cada rua da Maré com muita dificuldade, e então levaram seu mapa à prefeitura, que o incorporou ao mapa oficial da cidade.

No início deste ano, diz Eliana Silva, a Microsoft abordou seu grupo e ofereceu cerca de US$ 4.400 pelos nomes e localizações de pequenas empresas que o grupo havia coletado durante o projeto de mapeamento. Ela recusou. "Levou muito tempo para fazer isso. É um trabalho difícil. E eles queriam tudo quase de graça? É um desrespeito", diz. "Eu queria financiamento para o projeto para que ele continuasse. Eles querem colocar no Bing e lucrar com isso."

Um porta-voz da Microsoft não quis comentar.

As grandes empresas não estão sozinhas na descoberta do potencial comercial das favelas. Maria Ribeiro, de 54 anos, proprietária de uma lavanderia na Rocinha, está na favela há 17 anos e anuncia no rádio, mas gostaria de expandir seu alcance.

"Se minha lavanderia estiver no mapa, talvez mais pessoas irão encontrá-la", diz. "Muitas pessoas vivem aqui há muitos anos e não conhecem meu negócio. A Rocinha é muito grande."

Por Will Connors | The Wall Street Journal, do Rio de Janeiro