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Clipping

28/04/2014 às 15:37

Muito a ser discutido sobre a mídia e a transexualidade

Escrito por: Laís Araújo
Fonte: Revista Continente

Eis que em 2014 a premiação mais antiga da indústria cinematográfica escolhe Jared Leto como melhor ator coadjuvante. A personagem que agradou a Academia é Rayon, de Clube de Compras Dallas, uma sensível mulher transexual que conhece o protagonista do filme durante um tratamento contra a Aids. Houve grande burburinho na mídia e em grupos de militância de gênero sobre o papel; a visibilidade recebida, porém, denotou bem mais que a ótima atuação de Leto – fica claro que a comunicação de massa reserva um espaço muito limitado para qualquer espectro fora do binário de gênero. Para uns houve comemoração pela significativa existência (e consequentemente visibilidade) do papel; para outros, certo pesar: Rayon é a transexual que a indústria cinematográfica se permite celebrar – e isso soa mais como forma de autocongratulação do que um sintoma de progressismo real.

Em Clube de Compras Dallas, Rayon é prostituta e viciada em drogas, caracterizada com fortes aspectos da imagem social preconcebida do grupo, e interpretada por um ator cisgênero (termo referente a pessoas cujo gênero é o mesmo que o designado no nascimento). A escolha por um ator com gênero dissidente do personagem levanta problemáticas distintas: a transgeneridade tem baixa representatividade em âmbitos sociais não marginalizados e encontra dificuldade, inclusive, na autorepresentação em espaços teoricamente reservados a ela – como na própria interpretação de personagens transgêneros. “Eu achei a interpretação dele boa, mas me senti desconfortável de ver um homem cis hétero travestido e sabendo que ele está sendo reconhecido por isso como algo corajoso ou incrível”, comenta Maria Clara Araújo, protagonista do documentário (trans)parência, de Igor Travassos e Letícia Barros.

                                                     
                                                   Rayon, interpretada por Jared Leto em "Clube de Compras Dallas"

Maria Clara Spinelli, atriz premiada no Festival Paulínia de Cinema com o longa Quanto Dura o Amor?, afirma que sua carreira profissional é limitada e desanimadora e que compreende e respeita a posição de questionamento sobre o destino dos papéis, mas aponta outra questão. “Se eu concordar com isso, a recíproca também será verdadeira: apenas atrizes que não nasceram transexuais podem fazer bem o trabalho de interpretar personagens com essas características. Ou seja, discordo totalmente.” Spinelli até hoje só interpretou personagens cisgêneras no teatro, e na televisão representou Anita, transexual vítima de tráfico humano, na novela Salve Jorge, da TV Globo. Hoje, porém, a mesma emissora anuncia: Geração Brasil, próxima novela da grade, terá o ator Luís Miranda como intérprete de Dorothy Benson, a primeira personagem trans de destaque no horário nobre recente. “Assim como acho que Felicity Huffman fez brilhantemente uma personagem transexual em Transamérica, acredito que qualquer ator ou atriz de verdade pode interpretar, sempre, qualquer personagem”.

Não há, porém, nenhuma simetria nessa distribuição: a atriz afirma que mesmo com reconhecimento da crítica, não recebe muitos convites de trabalho para TV e cinema e que eles nunca são papéis de mulheres cisgêneras; atualmente é irreal listar atores e atrizes trans que tenham interpretado papéis com o gênero que se identificam em veículos de mídia de grande circulação. “Procurei alguns agentes de atores para me associar, e também não tive sucesso. Aliás, tive, até descobrirem minha história de vida. Então, foi inevitável aceitar uma dura realidade: por mais que eu trabalhasse, me esforçasse, tivesse talento e dedicação, eu jamais poderia competir de igual para igual com outra atriz que não nasceu transexual”. Há espaço, no entanto, para representações extremamente caricatas e danosas nesses mesmos meios (como a de “Valéria” no programa Zorra Total, por exemplo). A prática lembra a experiência centenária do blackface nos teatros de vaudeville e menestréis americanos, onde negros eram interpretado por brancos com o rosto pintado, naturalizando ideias errôneas e estereótipos que só conseguiram ser combatidos com mais firmeza durante a década de 1960, com o Movimento dos Direitos Civis.

Maria Clara Araújo, que também escreve para Revista Capitolina, fala sobre a importância dessas representações midiáticas. Para ela, a comunicação e arte ajudaram na sua construção enquanto pessoa, e por isso a importância do debate quanto ao que está sendo exibido (e naturalizado) pelos meios. “Nós somos pouco representadas como um todo, e me sinto feliz por ter ocupado um cargo de representação ao fazer o documentário. Tentei ali falar da melhor maneira possível, porque não se tratava só de mim”. Ela cita que a hipersexualização de pessoas transgêneras ajuda a construir o assédio sexual que sofre diariamente. “Eu acho que quando você constrói uma personagem que representa uma classe estigmatizada há de ter um certo cuidado. Precisa ter.”

Breve análise de gênero e sexualidade no cinema

“Temos um histórico de figuração das questões de gênero no cinema que muda do início dos anos 90 para agora”, explica Fernanda Capibaribe, doutoranda em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), professora efetiva e pesquisadora nas áreas de gênero e cinema. “Até esse momento, era comum a abordagem da transexualidade a partir de um desvio, de algo que permanecia escondido ao longo de boa parte da narrativa e, ao ser desvelado, acarretava em surpresa negativa”. Como exemplo, os filmes Victor ou Victoria (Blake Edwards, 1982) e Traídos pelo Desejo (Neil Jordan, 1992). “Hoje, não apenas o transexual aparece nas telas afirmando-se identitariamente, como aparecem também diferentes formas de vivenciar a transgeneridade, onde não cabe esconder-se de um julgamento heteronormativo”.

Ela cita o roadmovie brasileiro Olhe para Mim de Novo (Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, 2011) como exemplo destas novas práticas. “O filme apresenta a vida de Sylvio Luccio, transexual masculino e militante, que afirma seu corpo e comportamentos a partir de um imaginário ultra-masculinizado do 'cabra macho'. Ele incomoda justamente porque não tem vergonha ou medo de afirmar-se e construir sua subjetividade para além do aceitável”. Mas não apenas o conflito explicíto das questões é interessante – para a pesquisadora, a naturalidade das questões de gênero e sexualidade no filme Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013) é uma adição positiva às questões. Febre do Rato (Cláudio Assis, 2012) tem uma abordagem semelhante. “Não posso deixar também de citar o filme Tudo Sobre Minha Mãe (Pedro Almodóvar, 1999). Esse filme subverte todo o imaginário do políticamente correto que se construiu no senso comum a respeito dos lugares demarcados que associam gênero e sexualidade”.

“O cinema está em ressonância com os contextos sociais que eclodem nos diferentes períodos históricos, seja para reiterar determinadas tendências, seja para promover rupturas”, aponta Fernanda. Ela aconselha o uso de um olhar crítico para representações que abordam a transgeneridade como desvio. “Aqueles que tratam da questão como algo proibido, que precisa ser velado ou que padece de ‘correção’. Felizmente tenho visto poucas representações com essa abordagem nas produções atuais. Acho que essas elas têm ficado cada vez escassas e isso é um bom indício”.