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Clipping

10/11/2013 às 06:02

Os cinemas que fugiram ao roteiro de destruição

Escrito por: Redação
Fonte: O Globo Online

Apesar da proliferação das salas em shoppings, cariocas dão valor aos antigos cinemas de rua e se mobilizam para conservar os que restaram

No alto da fachada em estilo art déco, o nome do cinema e o desenho de uma estrela de cinco pontas ainda pairam sobre o bairro, reavivando na memória de quem vive por lá os bons tempos em que o Cine Vaz Lobo tinha fila na porta e era uma das atrações culturais e ponto de encontro da região. O prédio, fechado desde 1974, está abandonado e por pouco não foi demolido para a construção da Transcarioca. Informados do risco de derrubada do edifício, moradores e pesquisadores da área procuraram a prefeitura com um dossiê e provaram que o sobrado do velho cinema - inaugurado em 1941, com a presença da então primeira-dama da República, dona Darcy Vargas - merecia ser poupado. Construído para ser um cineteatro, ele tinha 1.800 lugares, coxia, camarim e um palco e funcionou até 1986.

Um dos líderes desse movimento de preservação do Cine Vaz Lobo, o pesquisador Ronaldo Martins, de 71 anos, foi frequentador da casa e lembra com emoção a beleza do espetáculo de luzes coloridas que antecedia cada sessão.

- Ele tinha estilo art déco tardio por fora, mas por dentro o hall era art nouveau. Nas laterais da entrada, havia espelhos trabalhados, lindíssimos. Dentro da sala de projeção, havia cinco jogos de sancas em cada lateral, com uma iluminação embutida. Antes de começar a sessão, sempre soavam o gongo três vezes: no segundo toque, um funcionário escurecia o cinema, e começava um jogo de luz lindo - recorda Martins.

O caso do Cine Vaz Lobo ainda não teve um final feliz, mas o exemplo da mobilização da comunidade local mostra que, apesar da proliferação das salas em shoppings, os cariocas dão valor aos antigos cinemas de rua. Seja pelas histórias vividas diante das telas, seja pela beleza arquitetônica dos prédios. A RioFilme, empresa da prefeitura responsável pelo estímulo ao mercado audiovisual da cidade, informa que um projeto de revitalização dos cinemas de rua está em estudo, mas não informa quantos prédios serão beneficiados, nem quando efetivamente começará a restauração.

Na Zona Norte, duas outras preciosidades são citadas por arquitetos e apaixonados pelo tema. Uma delas é o Cine Guaraci, em Rocha Miranda, inaugurado em 1954 e fechado desde o começo dos anos 90. Com escada de mármore de Carrara e colunas gregas, ele teve cerca de 1.300 lugares. E foi um dos primeiros do Rio com poltronas estofadas. Hoje, está fechado e degradado. A outra construção, que sofre com a ação do tempo, é o Cine Rosário, de 1938, localizado em Ramos. Desde que foi desativado, em 1992, o prédio, tombado pelo município em 1997, já mudou de nome (virou Cine Ramos) e de uso: foi boate e, por último, bingo. Atualmente, está desativado e é mais um com aspecto de abandono.

Cinema de 1909 agora é uma boate

No Centro, o Cine Theatro Ideal, na Rua da Carioca, inaugurado em 1909 (mesmo ano do vizinho Soberano, atual Cine Íris, ainda em atividade), já foi sapataria e, por fim, virou boate. Na fachada, em bom estado, ainda se vê de pé um conjunto de cinco mãos francesas de ferro trabalhado.

O primeiro boom de cinemas no Rio ocorreu entre 1907 e 1911, quando cem salas foram abertas, a maioria no Centro. Autor do livro "Salas de cinema art déco no Rio de Janeiro", o arquiteto Renato Gama Rosa lamenta que poucos prédios tenham sobrevivido ao que chama "massacre dos anos 1980", período de maior destruição de salas de rua na cidade. Para Gama Rosa, entre os cinemas mais significativos ainda de pé e abertos, está o Iris, na Rua da carioca, o mais antigo (inaugurado em 1909 e ampliado em 1921):

- Depois vem o Odeon, que é de 1925 e também conserva sua arquitetura quase intacta.