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Clipping

27/04/2018 às 20:18

Os Prêmios Pulitzer e o resgate da verdade

Escrito por: Rosario G. Góme
Fonte: Carta Maior

Sob a premissa de que a imprensa deforma, mente e engana, Trump abriu seu mandato com uma intempestiva declaração de guerra

Ao dizer que a imprensa deforma, mente e engana, Trump abriu seu mandato com uma forte declaração de guerra aos meios de comunicação.
 
A escritora estadunidense Jennifer Egan, vencedora do Prêmio Pulitzer em 2011, se atreveu a publicar, um ano depois, uma novela no Twitter. A revista The New Yorker propôs contar uma história de ficção em sucessivas entregas de 140 caracteres, o máximo permitido pela rede social. Com a precisão de um cirurgião, ela foi construindo os tuites para que cada mensagem coubesse em tão reduzido espaço e tivesse um certo sentido. Foi assim como, pouco a pouco, ela foi criando a obra Caja Negra (“Caixa Preta”). Ao final, o Twitter não é mais que um lugar onde contar histórias, algumas vezes fictícias e outras vezes reais, sobre qualquer âmbito: política, esportes, economia, espetáculos.
 
Indiretamente, a rede social vem tendo protagonismo entre os ganhadores da 120º edição dos prestigiados prêmios. Ao redor da etiqueta #MeToo se articulou um movimento que provocou uma avalanche de denúncias sobre acosso sexual na indústria cinematográfica, balançando as estruturas em Hollywood. Esse escândalo desencadeou a ruína de Harvey Weinstein, até então um dos produtores cinematográficos mais poderosos, e a saída do ex-apresentador do canal Fox News, Bill O’Reilly.
 
O mérito foi atribuído ao diário The New York Times e da revista The New Yorker, que divulgaram, de forma “explosiva”, um dos maiores escândalos do país. Suas informações denunciavam a coerção e brutalidade exercida por “poderosos e endinheirados predadores sexuais” contra estrelas do cinema e da televisão. O barulho provocado pelos relatos de atrizes como Ashley Judd, Mira Sorvino, Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow contra os semideuses do celuloide causaram um sismo de grande magnitude e efeito global. As vítimas do silêncio alçavam finalmente suas vozes.
 
Além deste caso, o New York Times compartilhou com o Washington Post o prêmio à melhor cobertura de interesse público nacional, pelas informações em torno à confabulação russa para impulsar a candidatura de Donald Trump à Casa Branca. Os Pulitzer destacaram as notícias “profundamente documentadas” das interferências exercidas por Moscou durante a campanha das eleições presidenciais de 2016.
 
Trump tem, entretanto, outra visão deste espinhoso assunto. Em sua opinião, a trama russa é “a maior farsa já contada ao povo americano”. Aliás, o presidente dos Estados Unidos “premiou” as duas históricas manchetes com os delirantes Fake News Awards – uma invenção sua para distinguir os meios “mais desonestos do ano”, segundo sua visão particular. Um deboche típico dentro de um já não pequeno histórico de conflitos do presidente com as empresas de comunicação que não compram as suas lunáticas declarações e jogadas midiáticas.
 
Sob a premissa de que a imprensa deforma, mente e engana, Trump abriu seu mandato com uma intempestiva declaração de guerra. Sem entrar no jogo das desqualificações gratuitas, os meios se dedicaram a fazer o que devem: denunciar os abusos do poder, seja em Hollywood ou na Casa Branca. A verdade objetiva, empírica e baseada nos fatos está sendo pisoteada, mas aí estão os jornais de qualidade para resgatá-la.