Receba no seu e-mail

Voltar

Clipping

21/03/2016 às 14:22

Protagonistas, sim!

Escrito por: Xandra Stefanel
Fonte: Rede Brasil Atual

Há não muito tempo, profissionais negros estavam à margem da produção cinematográfica. 'Com políticas afirmativas e editais específicos, surge uma nova geração', afirma a cineasta Renata Martins

Até o começo dos anos 2000, Renata Martins achava que se tornar cineasta era sonho impossível. Um ano depois do lançamento do Programa Universidade para Todos (ProUni, em 2005), ela conquistou vaga em uma faculdade particular na cidade de São Paulo. O sonho estava se tornando realidade, e as mudanças pelas quais o país começava a passar dariam frutos. Sua carreira e a crescente produção cinematográfica entre mulheres negras são prova disso. Aos 38 anos, Renata traz no currículo várias produções: é diretora e roteirista do curta-metragem Aquém das Nuvens, foi roteirista da série Pedro & Bianca, que ganhou o Prêmio Emmy Kids Internacional, em 2014, e tem vários projetos em desenvolvimento, entre os quais a segunda temporada de uma série feita por e para mulheres negras. “Empoderadas (exibida em um canal no Youtube) traz no conteúdo e na forma essa tentativa de mostrar à sociedade que há muitas mulheres negras fazendo muitas coisas maravilhosas, inclusive na produção audiovisual, desde o princípio até a finalização.” Apesar de se dizer esperançosa, ela conta que ainda há muito caminho a ser desbravado em direção ao aumento do número de profissionais negros, ao acesso ao financiamento e à quebra dos estereótipos.
 
Como você decidiu que queria ser cineasta?
 
O cinema começou como um desejo que, dez anos atrás, era quase impossível. A gente só tinha em duas universidades curso de Cinema aqui em São Paulo, a ECA (Escola da Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo) e a Faap (Fundação Armando­ Álvares Penteado) – uma que tem uma tradição para entrar e outra muito cara. Desencanei. Comecei a estudar para prestar vestibular para Geografia. Nessa época, surgiram as políticas afirmativas, e em 2005 foi o primeiro ano em que a faculdade Anhembi Morumbi teve a política de cotas, por onde eu entrei. Cinema sempre foi um curso extremamente elitizado. Eu teria de ter tido acesso a uma educação mais fortalecida para poder ter acesso a uma vaga. Fiz cursinho popular, mas ainda assim era cursinho e trabalho, não pude ter aquela dedicação full time.
 
Está feliz com a escolha?
 
Tem sido bacana. Logo que eu saí da faculdade, fui contemplada com um edital do Prêmio Estímulo para desenvolver um curta, Aquém das Nuvens, quando dirigi e roteirizei meu primeiro trabalho. Paralelo a isso, eu trabalhava muito com arte-educação, e nesse período também surgiu o convite para trabalhar na equipe de roteiristas da série Pedro & Bianca (da TV Cultura). A série foi premiada, ganhou Emmy. No ano seguinte, o Renato Candido de Lima, que me convidou para participar de Pedro & Bianca, me convidou para desenvolver outro projeto de série com ele, o Rua 9. Ele foi contemplado pela prefeitura e a gente desenvolveu, em 2014, uma série para a TV cuja temática é o universo dos anos 1990 e o rap como um despertar desse jovem negro da periferia como sujeito. Agora, ele está em fase de captação de recursos para a produção do piloto.
 
Todos esses projetos têm presente a questão racial e periférica? Quando ficou claro para você que essa temática teria um peso importante na sua obra?
 
Na verdade, o Aquém das Nuvens em especial não tinha uma preocupação racial. Era o meu universo: trata de uma mulher negra e a minha família é negra. Ele não nasceu como filme político. Eu simplesmente atribuí o protagonismo que poderia ser de qualquer outra pessoa a personagens negros. Minha proximidade com essa questão de que o audiovisual e o cinema podem ser ferramentas poderosas na construção de identidade se deu durante a universidade. Era um espaço em que eu não estava inserida. Eu era uma das poucas alunas negras e periféricas. Alguma coisa ali não se encaixava. Paralelamente, tive a oportunidade de trabalhar com a companhia Os Crespos, um grupo de teatro de São Paulo que há dez anos lida com pesquisas voltadas a questões raciais. Acho que foi nesse período que a chave de fato virou, porque eu sei que fui chamada para o Pedro & Bianca porque a Bianca era uma protagonista negra. Provavelmente, se fosse outro tipo de série, as pessoas não teriam me chamado. Ainda tem essa tentativa de definir lugares…
 
Como assim?
 
Tenho percebido que alguns trabalhos surgem porque sou uma mulher negra que trabalha com cinema. Mas eu não seria chamada para uma construção onde não há o protagonismo ­negro. É como se a gente não servisse ou fosse apto para escrever sobre outros personagens. Foi com Os Crespos que surgiu de forma mais latente essa questão da importância da arte como instrumento político.
 
Como você analisa a presença de pessoas negras no mercado cinematográfico? Ainda é uma elite branca?
 
Opa! Certamente. Acho que isso ainda vai existir por um bom tempo porque a gente produz muito pouco. Então, a partir do momento em que nós, profissionais negros, produzimos pouco e a linguagem é experimento, a gente tem dificuldade de ampliar a quantidade de profissionais. Por exemplo, a Bianca: é uma personagem negra que foi construída por um universo de pessoas brancas. A gente tem uma ausência significativa tanto de escritores, quanto de diretores, produtores e técnicos de audiovisual negros. Mas sinto que, com as políticas afirmativas e os editais específicos, a gente tem tido possibilidade de criar uma geração de profissionais negros.
 
Então existe uma perspectiva de melhora nesse cenário?
 
Eu acho que sim. Estou fazendo uma curadoria de um festival que tem um recorte étnico e de gênero, o Fespacine, que acontece pelo segundo ano na zona leste de São Paulo. Tenho visto muitos filmes de cineastas negras, um universo que há dez anos era invisível. Eu tenho uma perspectiva positiva das situações como um todo, por causa dessa transformação político-econômica que ocorreu em dez anos. A partir do momento em que você está construindo personagens e narrativas, é muito difícil que reproduza estereótipos que foram apontados ao longo da história do cinema. Não basta que sejamos negros produzindo, é importante que sejamos negros e conhecedores da nossa trajetória e conscientes da nossa história, porque se nosso discurso ainda estiver colonizado, nossas produções assim serão também.
 
E quanto à presença de mulheres nesse mercado?
 
Tem o filme O Tempo dos Orixás, da Eliciana Nascimento, uma cineasta da Bahia que foi fazer mestrado nos Estados Unidos, muito bem realizado. Tem também o da Yasmin Thayná, o Kbela, uma experiência audiovisual sobre esse processo do tornar-se mulher e sobre o entendimento da mulher a partir da estética, um filme que tem tido uma vida grande em festivais e tem mobilizado um determinado setor da sociedade – porque ela se propôs a fazer um filme de forma coletiva, com influências de artistas negras. Eu acho que a gente tem entendido que sozinho fica mais difícil de produzir.
 
Há um movimento de cineastas negras no Brasil?
 
Eu não sei se existe um movimento institucional, mas existe um movimento individual que leva ao coletivo. A gente tem entendido que, ao longo da história, tivemos pouco apoio de homens brancos, de mulheres brancas e dos homens negros. Então, teoricamente, a gente sempre teve de se virar sozinha. Isso também reverbera nos nossos trabalhos. É um processo de irmandade. Agora eu consigo me conectar com uma garota que produz na Amazônia e em outros estados, coisa que anteriormente a gente não tinha.
 
Qual é a representação da mulher negra no cinema e TV brasileiros?
 
A cada dia eu tenho assistido menos TV. No cinema, tem uma pesquisa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) que diz que nos últimos 12 anos, além de não ter nenhuma mulher negra produzindo audiovisual como diretora ou roteirista, as mulheres ocupavam 4% desse espaço de representação. E ela ainda vinha em um lugar muito caricato, como objeto de desejo. E agora nós estamos tomando mais conhecimento sobre a questão do colorismo: quanto mais clara a pele da mulher negra, mais chances de ela abocanhar mais papéis. As mulheres negras de pele escura continuam sendo empregadas domésticas, continuam nesses lugares sociais que lhes foram estipulados e nos estereótipos.
 
Seu trabalho como cineasta contribui para isso mudar.
 
Eu gostaria muito que, de fato, ele tivesse essa capacidade de transformação. Os meios de produção sempre estiveram nas mãos das mesmas pessoas. A partir do momento que eles são minimamente mais democratizados, a gente precisa falar desse lugar.
 
É esse o objetivo da série Empoderadas?
 
É deslocar lugares. Empoderadas traz tanto no conteúdo quanto na forma essa tentativa de mostrar para a sociedade que há muitas mulheres negras fazendo coisas maravilhosas na produção audiovisual, do princípio até a finalização. A gente começou o ano passado, fizemos 14 episódios, que estão na nossa página (do Facebook), que também é um espaço de referência, de troca e de ampliação de informação. É um espaço de viralização e construção de conteúdo e de valorização da mulher negra. A primeira temporada do Empoderadas encerrou em novembro, e estamos em processo de produção da segunda, que vai ser itinerante, com mulheres de alguns estados do Brasil.
 
Como você financia seus projetos?
 
A primeira temporada de Empoderadas não teve financiamento. Alguns amigos emprestaram equipamentos, amigas foram parceiras e tiraram dinheiro do bolso para o transporte e a alimentação… Eu fiz a primeira temporada com a Joyce (Prado), também cineasta negra, e os custos foram nossos. Ao longo da temporada, muitos frutos foram surgindo: palestras, exibições, o Sesc Pompeia fez festival chamado Empoderadas, com uma série de palestras com pensadoras negras... Parte desse dinheiro de exibição estou investindo na segunda temporada, mas é pouco. No ano passado, a gente também ganhou um fundo de investimento social, o Elas, de desenvolvimento para o fortalecimento de mulheres. Paralelamente à segunda temporada, vai ser desenvolvido um processo de capacitação com meninas de colégios públicos. Serão quatro meses de discussões e reflexões com mulheres negras que a gente considera que podem auxiliar nesse processo histórico no que diz respeito ao feminismo e às questões raciais. Depois, vai ter uma formação técnica com outras profissionais e a gente vai filmar quatro episódios com mulheres inseridas na tecnologia.
 
Se fosse programa feito por essa “elite branca”, teria acesso mais fácil a financiamento?
 
Acho que sim. Vou dar um exemplo: um dos nossos episódios teve quase um milhão de visualizações, que foi o da MC Soffia. Lembro que alguns anos atrás rolou um viral do Tapa na Pantera, feito pelo Esmir Filho com a Maria Alice Vergueiro. Esse menino não ficou uma semana sem trampo ou sem alguém acreditar que ele era genial pra ele poder fazer outras coisas, saca? A gente não teve nenhuma proposta direta de venda da temporada ou de patrocínio. De qualquer forma, eu não gostaria que o Empoderadas fosse um projeto só para virar grana… A gente vai ver se tem alguns editais abertos, pensou em fazer uma loja virtual para gerar uma receita. Até porque eu quero pagar essa galera. Não quero ninguém trabalhando de graça comigo a vida inteira, não faz sentido. A gente fala de empoderamento e remuneração também é empoderar, né?
 
O Ministério da Cultura e outros órgãos têm lançado editais voltados para criadores e produtores negros. Qual é sua opinião sobre eles?
 
Tem o Curta Afirmativo, que está na segunda edição, e que é muito importante. Mas eu fico pensando nessa cilada dos editais: foram 15 projetos contemplados e mais de 400 inscritos. Então, existe uma demanda voltada para temáticas negras. Essas 385 pessoas não acessam os outros editais! Quando a gente olha os resultados do Prêmio Estímulo,­ do Fundo Setorial e outros tantos, às vezes – ou quase nunca – você tem um projeto apresentado por profissionais ou produtores negros. Mas há um movimento.
 
Ainda tem pessoas que acham os editais específicos, como as cotas, são privilégios.
 
Pois é! Um direito se torna privilégio na cabeça de quem não precisa disso, né? Quando você está fazendo qualquer coisa e ninguém te questiona, te importuna e o seu conhecimento é único e válido, aí vem uma geração de pessoas questionando esses lugares e essas formas. A real é que você vai perder o privilégio de fazer o que quiser, como quiser e de falar o que quiser. Se você está acostumado desde criança a estar em uma sala onde só tem iguais, quando vir duas ou três meninas cotistas que questionam esses discursos elitistas, é um choque! É o medo claro de perder privilégios.
 
Isso não é só no Brasil. Basta ver a polêmica do Oscar, que nas duas últimas edições não teve nenhum negro entre os atores indicados.
 
E com a justificativa de que os atores e atrizes não são bons! Daí você pensa que o David Oyelowo, que fez o Martin Luther King, não foi indicado no ano passado mesmo com uma atuação maravilhosa… Você analisa as edições anteriores e vê que tem um monte de atores não negros medíocres que foram indicados… E percebe que não tem justificativa: é racismo.
 
Com tudo isso, você ainda vê a situação de forma positiva?
 
Sim. Eu tinha um professor de História que dizia que a gente tinha de ser positivo. A gente levanta todo dia da cama e vai pra luta. É mais do que querer, tem de acreditar.
 
Como você define sua luta como cineasta e como cidadã?
 
Ela passa pela valorização das pessoas que, ao longo da história, foram tornadas invisíveis. Tem um pouco esse desejo de dizer que a “história oficial” não é tão oficial. Há tantas outras que não foram contadas ainda. Eu não sou a única nem serei a última a fazer isso, mas é o que me move.