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Clipping

13/12/2013 às 22:02

Salvador recebe festival de filmes com temáticas social e cidadã

Escrito por: Redação
Fonte: Correio da Bahia

A Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul é realizada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em parceria com o Ministério da Cultura

Direitos Humanos discutidos sob a ótica cinematográfica. É o propósito da Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, realizada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em parceria com o Ministério da Cultura, que chega a Salvador hoje, com a exibição gratuita de 38 filmes na Sala Walter da Silveira, nos Barris, até quarta-feira.

Pré-selecionado para o Oscar como melhor longa de animação, Uma História de Amor e Fúria traz Selton Mello e Camila Pitanga dublando os protagonistas

A abertura, às 18h, apresenta Uma História de Amor e Fúria, pré-selecionado para o Oscar como Melhor Longa de Animação. Dirigido por Luiz Bolognesi, e com Selton Mello e Camila Pitanga dublando os protagonistas, o filme passeia pela história do Brasil ao longo de 600 anos.

A noite ainda conta com A Onda Traz, O Vento Leva; uma jornada sensorial sobre um cotidiano marcado por ruídos, incomunicabilidade e dúvidas, a partir da história de um rapaz surdo, que trabalha instalando som em carros. A direção é de Gabriel Mascaro.

"O cinema tem essa potência de nos colocar em contato com diferentes modos de vida e formas de peceber e viver o mundo. E, no caso da Mostra de Direitos Humanos, é uma questão central a forma como vamos entrar em contato com esses modos de estar na cidade, de viver as opções sexuais, de ocupar o tempo, de executar seu trabalho, a questão de raça, entre outros temas", define o coordenador da mostra, o carioca Cezar Migliorin, 43.
 

O cineasta Vladimir Carvalho é homenageado em mostra paralela

DiversidadeO evento, que engloba todas as capitais brasileiras, reúne três mostras: competitiva de longas, médias e curta-metragens; homenagem ao cineasta paraibano Vladimir Carvalho; e uma indígena.

"A gente pode imaginar que o cinema feito por índios é ingênuo, mas de forma alguma; são filmes complexos, muito bem realizados, com fotografias belíssimas e montagens de extremo rigor técnico", pontua Migliorin. São quatro filmes produzidos por índios e que propõem uma reflexão a respeito da presença da tecnologia, e do próprio cinema, na comunidade - alguns chegam a ter centros de produção.

Apesar de pouco conhecida, a produção cinematográfica indígena existe há pelo menos 40 anos, com o projeto Vídeo nas Aldeias, coordenado pelo antropólogo francês Vincent Carelli. "Hoje, a gente vê muitos desdobramentos desse projeto. Na mostra, alguns filmes estão ligados a isso e outros são independentes".

Já na outra mostra paralela, o público pode rememorar alguns clássicos de Vladimir Carvalho, um dos mais importantes documentaristas do país: Conterrâneos Velhos de Guerra (1991), Brasília Segundo Feldman (1979), O País de São Saruê (1971), Barra 68 - Sem Perder a Ternura (2001) e O Evangelho Segundo Teotônio (1984). "Sua obra perpassa a questão da fome e o direito à cidade, à comunicação e à expressão", elogia Migliorin.

Competitiva
Criada em 2006, em alusão ao aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, é a primeira vez que a Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul está a cargo de uma universidade, a Federal Fluminense (UFF) - até então, as sete edições foram organizadas pela Cinemateca Brasileira.

"A gente teve muita atenção, este ano, com a seleção dos filmes, para possibilitar uma discussão muito ampla em torno dos direitos humanos", afirma o coordenador. "As mostras paralelas, por si só, já são muito significativas em termos de qualidade e quantidade de discussões possíveis, ligadas aos direitos humanos e ao cinema".

Os 24 filmes selecionados para a mostra competitiva, dentre 150 inscritos, denotam este objetivo. São 13 longas, 7 médias e 4 curtas de diferentes países da América do Sul.
A curadoria incluiu os próprios estudantes da UFF. Entre os temas abordados, a inclusão de pessoas com deficiência, o direito à memória e à verdade, o respeito à diversidade sexual, as condições de vida da população de rua, o combate ao preconceito racial e a luta por trabalho digno.

"Estamos chegando, a todas as capitais, com uma qualidade de filmes excelentes", garante Cezar Migliorin. Ele observa que, em algumas praças, como Rio e São Paulo, a mostra é apenas mais um evento cinematográfico entre tantos. Em contrapartida, em cidades como Teresina, por onde o evento passou, na semana passada, é algo único e extremamente relevante para o cotidiano local. "Tivemos uma sessão linda de abertura lá, com muitas crianças, movimentos sociais, LGBT, portadores de deficiência. Então, essa junção de vários interesses em torno da mostra é muito especial e singular".

Inclusão
Como o foco da mostra são os Direitos Humanos, todos os filmes exibidos contam com closed caption; sistema específico para portadores de deficiência auditiva, que permite que as legendas informem todos os sons que compõem a cena, e não apenas aquilo que é falado.
Também há sessões com audiodescrição para pessoas com deficiência visual, onde o narrador descreve, minuciosamente, o que está acontecendo em cena, e mesmo o que é indicado fora dela.

E, graças à parceria com os Pontos de Cultura (projetos socioculturais, desenvolvidos pela sociedade civil e com financiamento do Ministério da Cultura), os institutos federais de educação profissional, as universidades, museus, bibliotecas, cineclubes, sindicatos, associações de bairros e telecentros, a mostra conta, ainda, com mais de 600 pontos extras de exibição em todo o país. "Estamos promovendo a circulação de filmes que, a princípio, não estariam tão capilarizados nem teriam tanta gente assistindo", defende Migliorin.

Afora a exibição dos filmes, a Mostra de Cinema e Direitos Humanos ainda engloba o projeto Inventar com a Diferença, que prevê a capacitação de professores do ensino fundamental e médio, de escolas da rede pública ao redor do país, para trabalhar com audiovisual, focando na temática dos Direitos Humanos.

Na Bahia, a capacitação acontece no primeiro semestre do ano que vem, na cidade de Rio das Contas. "A ideia é continuar levando cinema, educação e direitos humanos para o interior do Brasil. Fazer com que essas questões não estejam restritas a alguns meios e, sim, que façam parte de um espectro bem amplo da sociedade", ressalta.

Mesmo porque, os filmes que têm liderado as bilheterias nacionais são do gênero comédia. A temática consciente e engajada da mostra, portanto, não costuma ter espaço sob os holofotes. "Acho que quando o cinema está muito homogêneo, estamos perdendo alguma coisa. Se 80% do público só vai ver filme ligado a comédias, alguma coisa está errada", provoca Cezar Migliorin.

Ele critica a falta de acesso ao cinema independente e de arte pra quem mora no subúrbio ou longe dos grandes centros urbanos. "O problema também é encontrar um nicho e fazer com que o mercado expulse toda e qualquer adversidade", completa.

O público soteropolitano, então, tem até quarta para conhecer novas formas de manifestação do cinema, e participar de debates críticos em prol do exercício da cidadania e da responsabilidade social.

Confira os horários de alguns filmes do Festival:

As Hiper-Mulheres: Produção indígena premiada como melhor montagem e prêmio especial do júri no Festival de Gramado. "É um filme belíssimo", destaca Cezar Migliorin, coordenador da mostra. Exibição domingo. 18h

Quando a Casa é na Rua: Documentário tenta desvendar o que leva crianças e jovens a viver nas ruas e o que faz com que deixem as ruas. Com locações na Cidade do México e no Rio de Janeiro. Exibição segunda, 20h

Doméstica: Sete adolescentes filmam sua relação com as empregadas domésticas de suas casas. "É um filme absolutamente singular na cinematografia brasileira", define Cezar Migliorin. Exibição domingo, 14h