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Clipping

11/06/2015 às 14:14

Um cinema sem preconceito

Escrito por: Vandré Fernandes
Fonte: UJS

Decidi falar de dois filmes que saíram das telonas, há algum tempo, e estão disponíveis nas prateleiras das locadoras e/ou no youtube

A propaganda do Boticário para o Dias dos Namorados – em que aparecem três casais: um hétero, um gay e um de lésbicas presenteando seus parceiros – causou um grande debate na última semana. Outro debate é a PL que segue no Congresso sobre o conceito de família. Pensando nesses dois episódios, decidi falar de dois filmes que saíram das telonas, há algum tempo, e estão disponíveis nas prateleiras das locadoras e/ou no youtube.
 
Sobre meninos e meninos
 
O primeiro é o filme “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014), de Daniel Ribeiro. O tema já havia sido abordado por ele em um curta metragem, e foi ampliado para o longa que retrata um casal de jovens homossexuais de forma sensível, sem máscaras ou caricaturas.
 
Leonardo (Guilherme Lobo) é um estudante cego que sofre bullying dos colegas por conta de sua deficiência. Ele tem uma amiga, Giovana (Tess Amorim), que é sua principal confidente. Ela nutre um amor platônico pelo colega. Mas a chegada de Gabriel (Fabio Audi) instala um conflito na trama, porque Leonardo se apaixona por ele.
 
Poderíamos dizer que a cegueira de Leonardo é uma metáfora para o ditado popular “o amor é cego”. Ou seja, o ato de amar não depende da raça, da cor, do sexo, ele simplesmente acontece.
 
Aos poucos Gabriel vai entrando na vida de Leonardo, tanto nas caminhadas até o portão de casa, nas idas ao cinema – onde Gabriel narra as cenas do filme para Leonardo –, nos passos de dança no quarto, nos passeios de bicicleta, até rolar um beijo “roubado” na festa.
 
Todo os conflitos e o clímax do filme seguem para o final feliz.
 
A crítica de um jornal de São Paulo dizia que se tratava de um filme que arrancaria o elogio até de homofóbicos. E de fato isso aconteceu. Não houve críticas pejorativas. Ele foi elogiado e ganhou a indicação para disputar o Oscar como melhor filme estrangeiro, não sendo classificado pela academia de Hollywood. Mas isso não importa. O que vale é que foi um filme bem realizado e dirigido, colocando o amor e o combate ao preconceito em primeiro plano. Bem diferente dos comentários destilados nas redes sociais por conta dos 30 segundos da Boticário. E a vida segue.
 
Assista ao trailer aqui.
 
Uma trupe da pesada
 
O segundo filme é o documentário Dzi Croquettes (2009) em que aproveito para refutar o PL de autoria do deputado Anderson Ferreira (PR-PE), que determina que o núcleo familiar deve ser composto a partir da união entre um homem e uma mulher.
 
Treze homens vestidos de mulheres dão o formato ao grupo Dzi. Ele nasceu durante a ditadura militar, na época mais dura do regime, e mudou a cena do teatro e da dança, com sua peças e performances ousadas, abalando as estruturas sexuais das pessoas e quebrando tabus, influenciando toda uma classe artística que viria posteriormente.
 
O documentário é dirigido por Tatiana Issa e Rafhael Alvarez. Tatiana é filha do cenógrafo do grupo, Américo Issa. Através de fotos, vídeos amadores, super oito, depoimento dos quatro remanescentes do grupo e de vários artistas como Ney Matogrosso, Pedro Cardoso, Claudia Raia, Marília Pêra, Liza Minneli, Miguel Falabella entre outros, os diretores remontam a trajetória do grupo que trabalhava a comédia de costumes para debochar da ditadura e da realidade brasileira. Isso levou o grupo ao exílio.
É Lisa Minelli, cantora e atriz conhecida mundialmente, que vai adotá-los na Europa e, a partir daí, o Dzi Croquettes ganhou o velho mundo.
 
Dzi era mais que um grupo, era uma família. A menina Tatiana, com seus 3, 4 anos, viajava com o pai para todo o canto e se encantava com aqueles seres barbudos cheios de purpurina, com sapatos de salto alto e asas de borboletas, da qual ela acreditava serem palhacinhos.
 
É da costela do Dzi que nasce a versão feminina chamada “As Frenéticas”, que fez muito sucesso na década de 1980.
 
Tatiana encerra o filme mostrando a data dos oito membros que faleceram. Mas eles não morreram, como ela afirma, eles viraram purpurina. E assim termina falando de seu pai:
 
- E meu pai virou purpurina em 2001!
 
Ou seja, quem é o deputado Anderson Ferreira para dizer que ela, Tati, o pai e o namorado do pai não eram uma família?
 
Fica a dica dos filmes e por favor, menos ódio e mais amor, e é claro, muito cinema também.
 
Assista ao trailer aqui.