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Clipping

22/05/2014 às 14:47

Um outro olhar para a África

Escrito por: Amanda Secco
Fonte: Caros Amigos

Idealizadores do projeto Afreaka pretendem mostrar o protagonismo do Continente

No início deste mês de maio, a jornalista Flora Pereira e o designer Natan de Aquino caíram mais uma vez na estrada e partiram rumo à Nigéria, último país que receberá a dupla após quase seis meses de viagem pelo oeste do Continente Africano. A empreitada é parte do projeto Afreaka, site de jornalismo independente, fotografia e design que pretende mostrar uma África que faz sua própria história e que revela uma surpresa boa a cada passo.

Outro Olhar

Flora acredita que as pessoas têm um olhar "viciado" sobre a África e procuram no Continente os estereótipos. "Em Moçambique a gente viu um casal tirando uma foto de um prédio acabado. Mas ignoraram que do lado tinha uma igreja dos anos 1920 com uma arquitetura toda diferente. Na frente, tinha uma biblioteca maravilhosa", observa. O mesmo vale para os colegas de profissão jornalistas, que já condicionam suas pautas aos clichês, como ela chama. Flora usa o exemplo recente do episódio das jovens raptadas na Nigéria, que recebeu grande destaque nos noticiários. Ela sabe da importância do tema, mas lembra que há também muitos fatos interessantes pouco explorados sobre o país, que, por exemplo, passou recentemente a África do Sul como maior economia da África.

O projeto, portanto, não pretende negar os problemas políticos e sociais presentes no Continente Africano, como a violência e a pobreza. A ideia é mostrar que existe mais coisas nessa história. "Estamos tentando complementar. Criar um balanço", resume Flora.

Protagonista

Mostra uma África que também se inventa, cria e protagoniza, para os idealizadores do projeto, é contribuir para a criação de um olhar horizontal em relação ao Continente e desvinculá-lo da noção de passividade. Além disso, é uma forma de incentivar que as pessoas sintam orgulho da cultura do Continente, muito mais presente no cotidiano brasileiro do que se possa pensar (no idioma, na culinária, nas tradições etc.). "Acho que alimentar somente o lado negativo, acaba gerando uma baixa autoestima", opina Flora. 

Ela analisa que esse processo se reflete na educação, área em que pouco se fala sobre a contribuição histórico-social e Afreaka-i2cultural dos descendentes de africanos ao País. O projeto frisa que apesar de uma lei vigente desde 2003 obrigar o ensino da história e da cultura afro no sistema de educação brasileiro, pouca ação se vê na prática. "Se tem três páginas em um livro didático sobre história da África, duas são sobre escravidão. E uma criança negra não quer se identificar apenas com essa história", exemplifica. Por este motivo, uma das metas do projeto é impactar a educação. Ela lembra que o Brasil está repleto de influências africanas, pouco mencionadas nas escolas. Segundo Flora, algumas escolas já têm divulgado o conteúdo do Afreaka, o que é motivo de muita satisfação.

Financiamento Coletivo

Nos últimos meses, Flora e Natan passaram por Senegal, Burkina Faso, Mali, Gana, Togo e Benim. É a segunda vez que eles saem em viagem para abastecer o site Afreaka com reportagens, notas, fotos, vídeos e ilustrações. A primeira parte do projeto foi realizada em 2012 em oito países do Sul e Leste africanos. Ambas as viagens foram pagas por financiamento coletivo.

Os idealizadores do projeto desfrutam agora seus últimos dias na Nigéria, que devem deixar no final do mês de maio. Enquanto isso, o site www.afreaka.com.br e as redes sociais do projeto recebem aos poucos todo o material captado pela dupla. Sobre tudo o que já viu ao longo das viagens, Flora analisa que a realidade do continente, que considera extremamente hospitaleiro, ainda está muito distante do imaginário coletivo. E garante: megalópoles, centros urbanos, tecnologia e uma cultura diversificada são também marcas da África.