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Clipping

23/09/2016 às 14:35

'Vivemos tempos paradoxais', diz presidente da ANJ sobre credibilidade dos jornais

Escrito por: Alana Rodrigues
Fonte: Portal Imprensa

O jornalista Marcelo Rech, vice-presidente Editorial do Grupo RBS, foi eleito presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) para o biênio 2016-2018. Como quarto profissional do Grupo à frente da entidade, ele destaca que seus principais projetos são a defesa da liberdade de imprensa e a construção de um diálogo com a sociedade para tornar mais evidente o valor do jornalismo.
 
À IMPRENSA, Rech fala sobre sua opinião quanto à credibilidade dos jornais, a transformação do jornalismo, a democratização da mídia, o retrocesso da liberdade de imprensa no país e a internet como espaço para discussões coletivas. Confira a entrevista:
 
IMPRENSA: Quais são seus principais projetos como líder da ANJ?
Marcelo Rech: Há dois aspectos fundamentais. O primeiro é a defesa permanente da liberdade de imprensa, que está na origem da criação da ANJ. Isso inclui a denúncia contra agressões e ameaças a profissionais e veículos de comunicação e tentativas de inibir a livre expressão. Infelizmente, ainda vemos desde atos hostis e assassinatos de jornalistas a projetos que visam, em última análise, a restringir a livre expressão. Outra prioridade é tornar mais evidente para a sociedade o valor do jornalismo profissional. Precisamos demonstrar como esse jornalismo exercido por profissionais, com independência, ética e técnica, faz a diferença num mundo que necessita cada vez mais de informação de qualidade. Há abundância de desinformação nas redes – o que falta à sociedade é informação confiável, que é exatamente o produto fabricado pelas redações.
 
Em sua opinião, os jornais perderam credibilidade perante ao público? Se sim, por qual motivo e como reconquistar isso?
Vivemos tempos paradoxais. Os jornais nunca foram tão mencionados e compartilhados como fontes de informação confiável e, ao mesmo tempo, nunca foram tão contestados, o que, no fundo, é um sinal de sua relevância. Jornais são cada vez mais certificadores da realidade, confrontando versões que circulam em redes sociais ou outros meios digitais para apurar e apresentar ao público a verdade.  Essa é a missão do jornalismo com certificado de origem – não do ativismo que se vale da omissão, distorção ou desinformação, quando não da agressão verbal, para favorecer sua causa. Para tentar angariar apoio na opinião pública, o ativismo procura, muitas vezes, desacreditar o jornalismo profissional, mas essa controvérsia só reforça a importância para a sociedade de nossa atuação ética e independente.
 
Além dos jornais, o jornalismo também precisa se reinventar?
Precisamos avançar cada vez mais, em todas as plataformas. Já há muito deixamos de ser apenas coletores e transmissores de notícias. Mas temos de ser ainda mais ágeis, profundos e precisos nessa nossa missão de fornecer atestados de credibilidade para fatos e fenômenos que nos cercam. Jornalismo interpretativo, investigativo, antecipatório e outros são modalidades cruciais para reforçar nossa posição de jornalismo profissional. Além disso, superar limitações e reconhecer nossas falhas e corrigi-las constantemente é parte da nossa atividade: oferecer credibilidade e entregar também confiança.
 
Qual a sua posição sobre a chamada democratização da mídia?
Os meios de comunicação no Brasil são extremamente diversificados. A noção de “mídia” como tecido único desconhece não só a diversidade no universo da comunicação convencional como ignora que, com a revolução digital, caíram barreiras e fronteiras. O mundo mudou – e ele será de quem tiver a confiança, associada à criatividade, talento e qualidade, como seu produto principal. No fundo, regimes e ativistas que procuram fragilizar ou intervir em veículos livres e independentes sonham com uma crescente estatização dos meios e alguma forma de interferência sobre conteúdos que contrariam seus interesses. Com variações menos sutis, é um filme que passa da Rússia à Venezuela.
 
Você vê perigos fiscalizadores de conteúdos de órgãos concessionários (emissoras de TV e rádio) por parte do governo entrante?
Em todo poder, surgem tentações de inibir conteúdos que possam contrariar seus interesses. Felizmente, no Brasil, apesar de recaídas aqui e ali, não temos visto nas últimas décadas o Executivo agindo organizadamente contra os meios independentes, a exemplo do que ocorreu na Argentina e ainda se passa no Equador e na Venezuela.
 
A ANJ vai trabalhar no sentido de buscar fortalecer os meios de comunicação regionais?
Sem dúvida daremos seguimento a um excelente trabalho que já é feito. A ANJ tem, por exemplo, um bem concebido programa de treinamento online, que fornece acesso às melhores práticas em diferentes áreas dos jornais a todos os veículos e seus profissionais associados. Além disso, o conceito dos jornais como fonte de informação confiável e exclusiva fortalece muito os veículos regionais graças ao fato de produzirem preferencialmente conteúdos locais únicos e diferenciados.
 
No Brasil, alguns jornais enfrentam processos judiciais, como, por exemplo, as ações movidas por juízes do Paraná contra a Gazeta do Povo. Acredita que casos como esses sejam o principal motivo de um retrocesso na liberdade de imprensa no Brasil?
Esse é um triste exemplo de como temos a avançar no conceito de liberdade de imprensa no Brasil. Aceitar de verdade a liberdade de expressão gravada em pedra na Constituição significa respeitar informação e opinião alheias mesmo quando contrariam seus interesses. É triste, mas ainda vemos com frequência reações violentas, que vão do uso do cargo para punir jornalistas e veículos a agressões físicas e assassinatos de profissionais. Felizmente, a Suprema Corte brasileira tem sido uma defensora dos princípios mais basilares da liberdade de imprensa, que é um dos esteios da democracia e do estado de direito.
 
Em tempos digitais, associações viraram entes simbólicos, já que a web é um espaço para discussões coletivas, tornando o presencial reuniões certificadoras. Concorda com essa ideia?
A possibilidade de se ter discussões prévias via web é um benefício a favor da qualidade e celeridade das reuniões presenciais. A web não dispensa presença em congressos e seminários, por exemplo, e sim os torna melhores, com a audiência mais preparada. O mesmo ocorre com entidades, como associações. Sem se unir em torno de uma entidade, não há consequências objetivas para a conversação digital.