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    sexta, 10 de setembro de 2010



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Chegou a Rádio Twitter Peão. É pra festejar?

29/07/2010 |
Wilson da Costa Bueno
Portal Imprensa

As empresas e sobretudo os chefes que se cuidem. Se eles já tinham horror à tradicional Rádio Peão, demonizada particularmente pelas empresas que têm uma gestão e uma comunicação interna não democráticas, agora vão literalmente arrancar os cabelos porque a Rádio Twitter Peão chegou. E, pelo que parece, veio para ficar.

Isso mesmo. Nos Estados Unidos (há casos emblemáticos por lá), mas também em todo lugar, e inclusive no Brasil, as redes sociais (e especialmente o Twitter) têm abrigado vozes descontentes com o clima organizacional e com chefias que continuam confundindo autoridade com autoritarismo e promovem um festival (quantos processos em curso por aqui!) medíocre de posturas ultrapassadas, como o assédio moral, o abuso de poder, a avaliação injusta dos funcionários etc etc.

Como não é fácil botar a boca no trombone e identificar-se publicamente, na maioria dos casos estas manifestações de descontentamento ocorrem no anonimato, mas isso não significa que o impacto para as organizações e para os executivos envolvidos seja pequeno. Muito pelo contrário: provocam verdadeiros rombos na imagem e reputação porque, na prática, as mensagens costumam ser ácidas e ganham, com os milhões de conectados nas redes, uma dimensão planetária.

O "maltweetment" - esse é o termo cunhado para as mensagens negativas no Twitter - mereceu uma excelente reportagem da revista Amanhã (que tem dado contribuições relevantes para os colegas da Administração, da Comunicação Empresarial, do Marketing etc) de junho de 2010 e trouxe também depoimentos interessantes de gestores de empresas de destaque no cenário nacional.

Na prática, as organizações (muito menos as chefias) costumam não perdoar os funcionários malcriados e que ousam publicamente lavar a roupa suja. Elas estão certas? É assim que deveriam agir: eliminar imediata e drasticamente dos seus quadros aqueles que levam para fora dos seus muros os seus descontentamentos?

A questão deve ser analisada com cuidado e não devemos assumir a posição "patronalista" de que não se deve, sob hipótese alguma, tolerar esta desobediência institucional. Se as manifestações desfavoráveis ocorrem é porque algo deve estar acontecendo e não é razoável buscar uma solução paliativa. Todos sabemos que não funciona tratar ferida grande e exposta com merthiolate ou band-aid porque na verdade infecções generalizadas exigem tratamento mais adequado.

O problema, parodiando o ditado, está mais em cima e, infelizmente, são incontáveis os casos de insatisfação com o clima interno nas organizações e especialmente com a falta de competência das chefias, quase sempre inseguras, incapazes de resolver tensões sem apelar para a violência moral e para a chantagem emocional.

A gestão e a comunicação interna nas organizações vão de mal a pior, apesar do discurso grandiloqüente, falso, que apregoa a democracia interna, e dos prêmios conferidos por entidades (ah, que hipocrisia esses rankings de "melhores empresas para trabalhar!) que continuam avaliando cases produzidos pelos próprios gestores, mais interessados em conquistar prêmios do que em criar condições para um debate, um diálogo interno.

As organizações e as chefias permanecem avessas à divergência de idéias e opiniões e insistem em uma postura transgênica, monopolística, que se caracteriza por obrigar os públicos internos a aceitarem, sem contestação, a "verdade" dos gestores, mesmo que isso afronte a realidade, a ética, a transparência e contribua para a degradação do clima organizacional.

A Rádio Peão tradicional tem sido, ao longo do tempo, a reação possível (ninguém está defendendo que ela seja a melhor alternativa, mas ela é natural) dos funcionários para expressar divergências em relação ao "status quo" institucional e, convenhamos, as organizações que sofrem na pele com o ruído que ela faz certamente merecem ficar com os ouvidos em frangalhos.

A Rádio Twitter Peão apenas inaugura uma nova fase na relação entre funcionários e organizações e o barulho que ela pode provocar tem decibéis a mais e pode ser ensurdecedor. As redes sociais permitem que os ruídos ganhem novos espaços e contribuem para que muita gente escute os gritos descontentes dos públicos internos de organizações pouco competentes no processo de gestão de pessoas.

Agora, finalmente, as empresas vão ter que mudar de postura e considerar realmente como prioritária a comunicação com os públicos internos e especialmente criar condições para que o clima se oxigene, possa ser respirável. Na prática, muitas delas já têm sofrido com o ar contaminado porque os talentos (cada vez mais escassos) costumam fugir destes ambientes, deixando as organizações e as chefias assim que o cheiro ruim de incompetência institucional se manifesta.

Para evitar o barulho louco da Rádio Peão, a tradicional e a que ganha corpo nas redes sociais, a única alternativa é criar um ambiente construtivo, que potencialize o crescimento pessoal e profissional, que tenha como atributos básicos o diálogo, a participação, o respeito à diversidade e que descarte de vez as chefias que não têm legitimidade para liderar pessoas e processos.

É necessário profissionalizar a comunicação interna, dotando-a de instrumentos, canais de relacionamento que efetivamente promovam a integração. Chega de house-organs que apenas investem no auto-elogio das organizações e das chefias, basta de intranets com cara de mural de comunicados e de normas e de alternativas cosméticas como a velha caixinha de sugestões.

A administração moderna, em sinergia com o universo das redes sociais, precisa incorporar uma nova cultura, ser ágil, democrática, transparente e abandonar de vez a postura autoritária ou paternalista que respalda o paradigma do "pai patrão" que, se promete benefícios, exige obediência irrestrita.

A Rádio Twitter Peão não está se consolidando porque, como justificam as chefias incompetentes, as pessoas têm naturalmente a disposição para "detonar" as organizações. Isso não é verdade e, no fundo, eles sabem disso, mas precisam arrumar uma desculpa, um tapete para esconder as sujeirinhas institucionais. A Rádio Peão, a tradicional e a moderna, é alimentada pela falta de diálogo, pelos desvios recorrentes no processo de gestão de pessoas, pelo uso da autoridade ilegítima para sedimentar decisões que não encontram respaldo na lógica e não puderam encontrar consenso no seio das organizações.

A Rádio Twitter Peão pode até servir para acobertar preconceitos, questões pessoais mal resolvidas e desvios de caráter, mas ela aponta para a necessidade de uma revisão completa na forma de gestão, na definição de uma nova perspectiva para a comunicação interna.

As organizações que não estiverem atentas para a nova realidade vão ficar em apuros, agora ou daqui a pouco, porque o barulho das redes sociais tende a aumentar e promete ficar insuportável em situações de crise. Vai ser pior que megafone em cima de trio elétrico na porta da fábrica.

A saída não é monitorar as redes sociais para calar os descontentes, mas buscar finalmente tapar as "feridas" institucionais antes que elas vazem por todos os lados, expondo as organizações ao escárnio público. A imagem e a reputação empresarial estão cada vez mais vulneráveis e não há outra alternativa: ou se arruma a casa ou a sujeira vai se espalhar por todos os cantos. Ainda mais com tanta gente assoprando para que ela percorra o mundo.

Que a Rádio Twitter Peão não poupe chefias e organizações incompetentes. Há muito tempo que estamos alertando para a necessidade de mudanças radicais no processo de gestão e para a importância da democracia interna. Agora não adianta chorar porque, com as redes sociais, a porta foi definitivamente arrombada. Para a maioria das empresas, pode ser tarde demais para colocar a tranca.


* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação.


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