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    domingo, 19 de maio de 2013



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Bastidores da escrita contados pelos escritores

02/08/2012 |
Diogo Guedes
Jornal do Commércio (PE)

Livro reúne textos publicados no Suplemento Pernambuco com uma boa seleção dos autores contemporâneos brasileiros

“Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”, sintetizou certa vez a escritora francesa Marguerite Duras, ao falar da grande dúvida literária: por que os autores narram? Ficcionais(Cepe Editora, R$ 15, 112 páginas), coletânea de textos publicados na seção Bastidores do Suplemento Literário Pernambuco, traz textos que tentam entender que questões mobilizam os escritores brasileiros contemporâneos e como algumas de suas obras foram produzidas. O lançamento do volume é quinta (2/7), às 19h, na Livraria Cultura (Rua Madre de Deus, s/nº, Bairro do Recife), com conversa entre o organizador da obra, o jornalista e crítico literário Schneider Carpeggiani, e o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito.

Segundo Schneider, a ideia de convidar autores para falar sobre o processo de composição de suas obras é do também editor do Pernambuco Raimundo Carrero – que, como escritor, sempre externou por meio de oficinas e livros a vontade de revelar cada vez mais os artifícios da narrativa. “Cada mês que eu peço um texto para Bastidores a um escritor é quase um experimento psicanalítico: eles sempre acham que disseram tudo, mas ainda há o que ser dito”, conta Schneider. “É mais ou menos quando chegamos a uma sessão de análise e achamos que não há nada para ser dito, e é nesse momento que a história emerge”.

Ao mesmo tempo, a obra não se restringe ao fazer literário: traz textos sobre traduções e até mesmo de recriações de vozes narrativas de personagens, como o de Elvira Vigna sobre o seu romance Nada a dizer. Ronaldo Correia de Brito faz um dos relatos mais emocionados (e, paradoxalmente, lúcidos), explicando as dores de entregar um texto talvez ainda não finalizado. “Num dia qualquer, sem que nada espere e sem compreender o que acontece à sua volta, um editor arranca papéis inacabados de sua mão”, escreve – ele chegou a ficar doente durante esse processo de criação da obra. Sobre o seu premiado Ribamar, o crítico José Castello declara: “Foi um projeto que se impôs – um livro que, de forma sutil, mas violenta, me obrigou a escrevê-lo”.

Veja pedaços dos textos de Ficcionais:

Bernardo Carvalho (O filho da mãe)
“A grandeza da literatura, para mim, é justamente a possibilidade de não corresponder às demandas existentes (por mais bem-intencionadas que elas sejam), mas de criar demandas, antes inconcebíveis, onde elas não existem e onde nem sempre são bem-vindas”.

Alberto Mussa (Meu destino é ser onça)
“Não consigo (ou não me interessa) escrever sobre minhas experiências pessoais, observar e analisar o mundo ao meu redor ou expiar minhas próprias angústias. Preciso partir de um problema literário”.

Antonio Carlos Viana (Cine Privê)
“Saber teoria não melhora a produção literária, a não ser que você esqueça tudo na hora do trabalho, o que é difícil”.

Salim Miguel (A jornada de Rupert)
“Meu trato com a palavra é um exercício diário ou quase, que vem desde a infância, quando eu já tentava adequar e dar uma certa unidade à narrativa interior ou expressa, procurando recriar os acontecimentos do dia”.

Luís Henrique Pellanda (O macaco ornamental)
“Não, o meu livro não corre de rédeas soltas. Não há nele um criador embriagado, mas um autor que, apesar de consciente, age sob o efeito de um encantamento comum a seus conterrâneos”.

Carlos de Brito e Mello (A passagem tensa dos corpos)
“Assim: escrevemos para sofrer a experiência de escrever – como dançar é a finalidade da dança, como passear é a finalidade do passeio”.

Carola Saavedra (Paisagem com dromedário)
“Se todas as histórias já foram contadas, o que resta ao escritor? Minha resposta tem sido sempre: restam novas formas de contar a mesma história”.

Marcelino Freire (Angu de sangue)
“Sempre falo: este livro só foi possível porque me tornei retirante. Porque descobri que tinha sotaque”.

José Castello (Ribamar)
“Ribamar, como outros livros que escrevi, foi um projeto que se impôs – um livro que, de forma sutil, mas violenta, me obrigou a escrevê-lo”.

Ronaldo Wrobel (Traduzindo Hannah)
“Um cozinheiro me explicou que os peixes mais frescos são usados nos pratos básicos, enquanto cremes e temperos disfarçam o sabor dos outros. Assim são as melhores histórias: definem-se em poucas palavras”.

Ana Paula Maia (Carvão animal)
“Só uma coisa me interesssa na arte da escrita: a investigação. Só quero investigar aquilo que me é estrangeiro, que foge ao meu convívio e conhecimento”.

Julian Fúks (A procura do romance)
“Escrever é um ato de fracasso. A procura ineficaz da palavra exata, da palavra que falta, ou da palavra que escapa”.

Sidney Rocha (O destino das metáforas)
“O livro de contos partir do que nunca se esgota em um escritor de verdade: a sua certeza de morrer inconcluso”.

Eliane Brum (Uma duas)
“Para mim, foi exatamente assim que se passou. Como uma possessão de mim por mim. E não há anda, acredite, mais aterrorizante do que ser possuída por si mesma”.

Eucanaã Ferraz (Água sim)
“Gosto de pensar que a poesia pode educar nossos olhos. Escrevo com esse desejo: que as coisas se tornem mais nítidas, em todos os sentidos”.

Luiz Ruffato (Domingos sem Deus)
“Para mim, escrever é compromisso. Comprimisso com minha época, com a minha língua, com meu país”.

Ronaldo Correia de Brito (Eu estive lá fora)
“O escritor trabalha com personagens que o obsedam, alguns chegando a cavalgá-lo como os santos do candomblé”.

Tatiana Salem Levy (Dois rios)
“Porque escrever é isso, partir da realidade para transformá-la e, com as palavras, tentar se aproximar das coisas que realmente importam”


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