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E-Fórum / Notícias

15/08/2016 às 14:43

Circo da Democracia debate democracia e comunicação

Escrito por: Texto construído a partir dos relatos de Ednubia Ghisi e Camila Hoshino. Fotos: Leandro Taques, Paulo Jesus e Bruno Amaral. Edição: Elizângela Araújo (FNDC)
Fonte: Página do Circo da Democracia no Facebook

A coordenadora geral do FNDC, Renata Mielli, participou do debate e lembrou que a primeira vítima do golpe foi a liberdade de expressão. 'É preciso buscar conquistas', afirmou

Renata Mielli, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e do Barão de Itararé, afirma que a possibilidade de avanço na democratização de comunicação não vai acontecer sem democracia: "A primeira vítima do golpe é a liberdade de expressão". A afirmação foi feita durante sua participação no Circo da Democracia, na última sexta-feira (12/8), em Curitiba. 
 
Mielli, afirmou que desde a entrada de Michel Temer na presidência interina da República, medidas de cerceamento da liberdade de expressão se multiplicam pelo país. Como exemplo disso, lembrou do caso da Virada Cultural em Minas Gerais, em que os artistas foram proibidos de fazer manifestações políticas. No mesmo evento, em São Paulo, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) não pôde fazer cobertura, para não dar visibilidade às manifestações contra o golpe. Além disso, Mielli fala do avanço da judicialização da censura, expressado por meio de ações judiciais contra a comunicação alternativa e blogueiros.
 
Para além da posição de resistência, Mielli pautou a importância de fazer proposições e buscar conquistas. "Existem contradições no seio do inimigo. Quem poderia imaginar que em 2015 o Congresso iria aprovar a Lei do Direito de Resposta?", questiona. As eleições municipais são apresentadas como janela de oportunidades. " Há muito que fazer, como propor leis de fomento à comunicação independente, por exemplo. É importante que a gente elabore plataformas de propostas para apresentar para os candidatos ".
 
A ativista também chamou atenção para o papel do Facebook, rede social que tem 3 bilhões de usuários no mundo: "Nós estamos vivendo sobre um domínio perverso de um algoritmo que nós não sabemos como funciona. É a nova ditadura da comunicação. Nós estamos que estar lá, mas com consciência do que ele significa. Nós estamos alimentando um monstro", e aponta a necessidade de buscar alternativas e fazer o enfrentamento à lógica do Facebook.
 
A jornalista Ednubia Ghisi, do Brasil de Fato, falou sobre a comunicação popular, que vai além da comunicação produzida por jornalistas, citando o principal “calo” do jornalismo, que é o financiamento por meio da publicidade e dá às produções um caráter comercial. “O que marca a comunicação popular, para além do produto, é o processo pedagógico de formação e de construção”, explicou, destacando que um dos desafios da comunicação popular é não reproduzir a lógica comercial dos grandes meios. 
 
“A comunicação deve servir para a transformação”, apontou Ghisi. Nesse sentido, mencionou  os veículos que são produzidos não necessariamente por jornalistas, mas por sujeitos que estão inseridos em processos de luta, como o caso do jornal “A Laje”, produzido pelo Movimento Nacional da População em Situação de Rua, o jornal Folha do Sabará, feito pelas associações de moradores do Sabará, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), e veículos do MST, que surgem a partir dos trabalhados realizados em assentamentos e acampamentos. 
 
A jornalista criticou os limites da internet, que, apesar de ter trazido grande visibilidade aos meios alternativos, não pode ser o único canal pelo qual se produz comunicação popular. Prova disso, são as pessoas de regiões que não tem acesso à internet e que precisam de outras formas e ferramentas de acesso à informação. Paralelo e imbricado a esse debate, segundo ela, é preciso lutar pela democratização da mídia. Não apenas no sentido de constar o monopólio das grandes empresas nas concessões públicas da radiodifusão, por exemplo, mas também mudando os protagonistas da comunicação. “ A luta é muito maior do que pela visibilidade. Sem fazer a luta pela democratização continuaremos fazendo uma comunicação popular manca, pois não estaremos mexendo na estrutura que nos cerca”, afirmou.
 
Leandro Taques, dos Jornalistas Livres, que afirmou que “nesse momento de golpe, a informação e a comunicação independente, fora da mídia comercial e hegemônica, deve se fortalecer para realizar uma contrainformação”. Ele explica que o Jornalistas Livres surgiu em São Paulo, em 2015, na cobertura de uma das manifestações da direita. Desde então, o grupo vem se articulando com colaboradores e com outros veículos para produção e compartilhamento de conteúdo. Entre as possíveis formas de financiamento, Taques destacou o crowdfunding. Ele reforçou, ainda, a importância dos comunicadores estarem juntos em coberturas colaborativas para construir narrativas com destaque. 

Paula Zarth Padilha, jornalista do site de notícias independente Terra Sem Males, falou sobre o projeto, que começou a ocupar um espaço que a mídia comercial não alcança, “a partir do interesse dos povos, dos movimentos sociais e também com base no jornalismo sindical”. O Terra Sem Males também funciona como impresso periódico, em que se destacam as fotografias do próprio idealizador do projeto, o fotógrafo Joka Madruga. 
 
Paula explicou que uma das tentativas de trabalho do site é acompanhar fonte sites oficiais para buscar “assuntos escondidos” a partir de uma perspectiva dos trabalhadores. A jornalista também faz criticas à interferência editorial na produção de conteúdo e ao comportamento da grande mídia em tempos de golpe, enfatizando a necessidade de fortalecer a comunicação popular. “Não podemos dar mais espaço à mídia comercial do que ela já tem”, diz. Para ela, é preciso que pessoas também se engajem no compartilhamento dos conteúdos produzido pelas mídias alternativas. 
 
Direito à comunicação
O professor de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), José Antônio Gediel, afirma que mesmo colocado pela Constituição Federal em vários artigos, o direito à comunicação não foi efetivado. "Mais do que pensar o que fazer para não perder, é necessário trabalhar para ainda realmente garantir este direito", observou. Para Gediel, é preciso construir uma informação livre das orientações dos oligopólios de comunicação. "Entre um gol e outro, entre uma novela e outra, o silêncio sobre a política só se coloca para dizer as verdades que estão soldadas aos interesses da grande mídia".
 

O professor ainda enfatizou que é preciso ir à lei, realizar mobilizações para promover um debate público sobre o uso democrático dos meios de comunicação atrelado ao trabalho e fortalecimento dos veículos alternativos.
 
Rafael Vilela, do Midia Ninja, faz uma reflexão sobre o que é possível nesse momento do ponto de vista da democratização da comunicação. “O debate sobre a democratização da mídia regrediu a tal ponto que estamos debatendo hoje a liberdade de expressão”, diz, mencionando o exemplo das restrições em relação a manifestações durante as Olimpíadas. “Talvez não seja hora de aprofundar o debate em relação aos formatos de política pública, mesmo porque já existe um grande acúmulo dos movimentos populares e de organizações que debatem a mídia. Com isso, já poderíamos ter feito dez revoluções no campo da democratização da comunicação”, afirmou Rafael, retomando as experiências de debates, fóruns nacionais e do Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, construído em coletivamente e que busca apoio popular desde 2013. 
 

Este é o momento, segundo ele, de construir uma resistência coletiva, ir para ação direta e conseguir fazer com que o golpe, mesmo que se consolide institucionalmente, não passe batido no imaginário da população. “O Brasil é um dos países que mais tem a mídia concentrada do planeta, mas ao mesmo tempo também temos uma rede de coletivos e de produtores de contra narrativas que quase não existe em outros lugares do mundo”, avalia. 
 
Rafael também recorreu à realização da Olimpíada para dizer que, cada vez mais, cidadãos estão engajados em produzir uma comunicação própria e não deixar que prevaleça a dos grandes meios de comunicação. “Não teríamos a capacidade de cobrir o que está acontecendo no Brasil se não fosse essa narrativa que está dissolvida”.
 
Circo da Democracia
 
O Circo da Democracia reuniu, entre os dias 5 e 10 de agosto, artistas, professores, jornalistas, políticos, publicitários, juristas, estudantes e toda a sociedade para falar de temas como educação, política, justiça, economia, arte/cultura e comunicação. Foi organizado pelo grupo Advogados pela Democracia, como o apoio de mais de 50 entidades. Seu principal objetivo foi levantar um debate acerca das consequências e desdobramentos de um impeachment presidencial para o país. 
 
Assista flashes do debate sobre comunicação no YouTube: https://youtu.be/0O_Q2fd-Sno