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E-Fórum / Notícias

19/10/2019 às 19:28

Desinformação e violações de direitos são consequências de um sistema de comunicação concentrado, apontam debates

Escrito por: Elaine Costa e Kelcilene Ferreira/Cobertura Colaborativa do 4ENDC

Mídias assumem papel central em questões fundamentais à população, como a reforma da Previdência e retrato dos diversos grupos sociais

O monopólio da mídia e o ataque aos direitos sociais foram temas de debate realizado nesta sexta-feira (18), em São Luís, como parte da programação do 4º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação. A atividade é uma iniciativa do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e é realizada na Faculdade Estácio entre os dias 18 a 20 de outubro.

De acordo com o professor de comunicação da Faculdade Estácio, Ricardo Alvarenga, ainda que os meios de comunicação devam atuar de forma a informar, educar e entreter, não deturpando os acontecimentos, a atual configuração do sistema de comunicação evidencia que as mídias possuem donos bem demarcados. “Os meios de comunicação, deveriam ser os olhos dos cidadãos, e deveriam agir como como sentinelas”, diz. De acordo com o professor a mídia não tem explorado a relação entre a execução de políticas públicas e ineficiência do governo.

Alvarenga ainda destaca que em outros momentos havia a imposição da um padrão do profissional e forma de se expressar, com a eliminação de sotaques, por exemplo. "Hoje o jornalista precisa apenas saber se expressar, de forma que todos os telespectadores entendam, ou seja, de forma informal, mas sem deixar de falar com seriedade e ética, passando sempre a realidade e a verdade dos fatos", avalia.

Para o diretor de comunicação da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Vinicius Santos Soares, a mídia exerce um grande poder na sociedade. “Ela tem o papel de nos manter informado de tudo que está acontecendo ao nosso redor, então temos que nos incomodar e não deixar nos manipular e controlar, porque é um compromisso de todos nós. Vamos segurar as mãos e seguir em frente por essa luta pela liberdade de expressão”, destacou. Ele ainda sublinha que, diante de um sistema de comunicação no país organizada em grandes monopólios, o espaço conferido à educação e os profissionais da área ainda é muito limitado. “Vale ressaltar que o ensino superior, tanto os estudantes quanto os servidores e os professores, carecem de espaço. Eles precisam ser vistos e reconhecidos pelos seus méritos na sociedade. Eles não podem ficar silenciados”, reflete.

A defesa da reforma da previdência pelos meios de comunicação evidencia a relação entre mídia e poder econômico, aponta a diretora de comunicação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Adriana Oliveira Magalhães. A medida que “traz consigo um desmanche de políticas públicas” recebe apoio das mídias comerciais, como os grupos Record e SBT. A reforma, que atende pela PEC 06/2019, em tramitação no Senado Federal, deve afetar, segundo ela, especialmente as mulheres negras.

“Houve um gasto com publicidade na mídia de janeiro a junho deste ano. As principais empresas bancárias que se propuseram a ajudar foram o Bradesco, Santander, Itaú. Eles detêm o monopólio da mídia. Sendo assim, o posicionamento dos especialistas foi favorável à reforma pelas mídias”, diz.

 

Violações de direitos humanos pela mídia

Outra reflexão realizada no mesmo dia, durante o evento, resgatou casos de violações de direitos humanos pelos meios de comunicação. Com violações ao direito de presunção de inocência e incitação ao ódio, os programas policialescos acumulam violações no retrato da população, em especial da população negra e de periferias.

De acordo com as expositoras do debate esse tipo de conteúdo responde por até 40% do faturamento das emissoras comerciais de televisão. Com o discurso “bandido bom é bandido morto”, frase bastante usada pelo então candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), esse tipo de programa vem ganhando espaço nas principais emissoras, dando lugar ao sensacionalismo na construção da notícia. A diretora da Andi Comunicação e Direitos, Ana Potyara, destaca que o conteúdo se configura como um “entretenimento de horror”. A advogada apresentou dados da pesquisa realizada pela organização no monitoramento de programas policialescos exibidos por diversos estados.

De acordo com levantamento realizado pelo Observatório Mídia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) as mulheres são grandes vítimas de retratos depreciativos e discriminatórios exibidos pelos programas policialescos. De acordo com a professora Ana Veloso há ainda um “silenciamento das vozes” de determinados grupos pela mídia.

A impossibilidade de expressão de diferentes grupos também se aplica nos espaços de participação social, contexto agravado pelo Decreto 9.759/2019, emitido pelo Executivo federal, e que resultou na extinção de espaços como conselhos e comissões. De acordo com a integrante da secretária de finanças do FNDC e membro do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Cristina Castro, o contexto de autoritarismo resulta em grave ameaça a livre expressão dos diferentes grupos. “Não se pode fazer críticas ao governo. Todos estão aflitos com essa nova realidade. O grau de insegurança dos defensores de direitos humanos e comunicadores é imenso”, desabafa.

 

Edição: Supervisão dos GTs