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E-Fórum / Notícias

10/08/2016 às 16:19

Maria José Braga: a democracia precisa de pluralidade nas comunicações

Escrito por: Redação FNDC/Fotos: reprodução Facebook

Eleita presidenta da FENAJ no mês de julho, a jornalista Maria José Braga afirma que a luta pela democratização das comunicações é prioritária para a categoria ao lado da luta contra o golpe

A jornalista Maria José Braga será a segunda mulher a presidir a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) nesses quase 70 anos de fundação da entidade. Eleita pela categoria no mês de julho, ela afirma que a prioridade da Federação, neste momento, é lutar contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e pela democratização da comunicação no país. A FENAJ é uma das entidades fundadoras do FNDC e até hoje compõe sua coordenação executiva. “Em todas as instâncias de deliberação da FENAJ, reafirmamos o FNDC como local de luta pela democratização da comunicação”, aponta. Graduada em Jornalismo e em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás, e mestre em Filosofia pela mesma universidade, Maria José é jornalista concursada do Instituto Federal de Goiás (IFG) e também representa a FENAJ no Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional (CCS-CN) . 
 
- Gostaria de iniciar essa entrevista falando sobre a luta dos jornalistas num âmbito maior, que é a luta pela democratização da comunicação. Qual é, exatamente, a relevância da atuação da FENAJ junto ao FNDC para essa nova gestão?
 
- O jornalista, além das suas lutas corporativas, tem duas grandes lutas: a democracia no país – estivemos em todos os movimentos de redemocratização do Brasil e agora estamos num movimento pela defesa da democracia – e a democratização da comunicação. Por questões de fundo, porque acreditamos que a democracia só se instaura de fato com democracia nos meios de comunicação, e por questões de trabalho, porque os meios de comunicação ainda são os maiores empregadores de jornalistas e outros profissionais de comunicação. Então, quanto mais democracia maior pluralidade. Desde a fundação do FNDC o elegemos como local de formulação e execução das ações pela democratização da comunicação no país. A FENAJ está na executiva do Fórum. Não nos afastamos, embora tenhamos divergências. Em todas as instâncias de deliberação da FENAJ, reafirmamos o FNDC como local de luta pela democratização da comunicação. 
 
- A Chapa 1 assumiu o compromisso de defender a democracia, os jornalistas e o jornalismo. Gostaria que você falasse dos principais desafios em cada um desses pontos.
 
- Temos uma gestão de três anos. Claro que existe uma conjuntura imediata em relação ao país que precisa de nossa atenção, mas que esperamos que seja superada muito rapidamente, que é a questão da presidência da República. Neste momento, a FENAJ, como grande parte das entidades que defendem a democracia no Brasil, estão engajados na defesa do não impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Voltada a normalidade da democracia no Brasil, a FENAJ volta a trabalhar a democratização da comunicação no Brasil. 

Precisamos mostrar para a sociedade que o jornalismo é uma atividade necessária para a democracia. Não é somente importante, é necessária. Apesar da multiplicação de vozes na internet, o jornalismo continua como fonte principal de informação.

 
- Uma das propostas da chapa é "ampliar a campanha nacional em defesa do Jornalismo e da profissão de jornalista". Em que sentido se dará essa ampliação? Como organizar a categoria para essa luta numa conjuntura de retirada de direitos e demissões cada vez mais frequentes?
 
Historicamente, os trabalhadores se mobilizam mais em condições adversas. Estamos enfrentando condições adversas e as reações da categoria já têm aparecido pelo país afora. Paralisações, manifestações de rua, estado de greve e greve. Então a gente aposta, sim, que a categoria vai perceber o que está em jogo.
 
- Como está a discussão, na FENAJ, sobre as novas formas de atuação profissional dos jornalistas, cada vez mais empurrados para formas alternativas de exercício profissional em blogs e projetos colaborativos, por exemplo? Esse cenário certamente tem demandado posicionamentos não tradicionais da Federação.
 
A FENAJ tem discutido isso há anos. E as discussões são feitas por meio de congressos nacionais de jornalistas. É um cenário que nos preocupa. O acúmulo de funções e as novas demandas para a categoria também são formas de precarização do trabalho.
 

Claro que não queremos negar os avanços e as transformações no mundo do trabalho e no caso do jornalismo, no entanto, temos que ter claro que essa precarização não se dá em razão de avanços tecnológicos, mas de busca de mais resultados financeiros pelas empresas. Não é porque tem câmara no celular que o jornalista vai ter que fotografar e filmar, a tecnologia não impõe isso, quem promove essa exploração exacerbada do trabalho é o patrão.

 
- Como está a discussão sobre a atualização da regulamentação profissional dos jornalistas?
 
- A FENAJ continua empenhada em aprovar a PEC que restabelece a exigência da formação de nível superior para o exercício da profissão, aprovada em dois turnos no Senado, pronta para ser votada em plenário. Vamos avaliar a situação em cima dos fatos concretos. Não podemos fazer uma previsão futurológica com base em suposições. A FENAJ tem um conselho de representantes que se reúne anualmente e na próxima reunião esse assunto estará na pauta.
 
- Em 70 anos de existência, você será a segunda mulher a presidir a FENAJ. Qual é o significado pessoal disso e como vê a participação das jornalistas no movimento sindical?
 
- Pessoalmente, é uma honra presidir a Federação, que é a entidade máxima de representação dos jornalistas, até porque também é o reconhecimento da minha atuação e do trabalho que desenvolvemos nos últimos anos. Coletivamente, creio que isso tem um valor político muito grande, já que a categoria é majoritariamente composta por mulheres; também tem um valor simbólico, porque também no jornalismo existem características bastante fortes de machismo e até casos de misoginia mesmo e mais uma vez a categoria elege uma mulher.
 
- A participação da categoria na eleição da FENAJ foi baixa?
 
- A pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro [realizada pela FENAJ] mostra que estamos na média das demais categorias profissionais. Temos 25% de sindicalização. Claro que achamos isso pouco. Como trabalhador intelectual esperamos que o jornalista tenha mais consciência da sua situação e passe a se engajar mais. Estudos sociológicos mostram que a penetração do neoliberalismo no mundo tem provocado uma desmobilização da classe trabalhadora em todas as categorias profissionais. Nossa intenção é reverter esse quadro e trazer cada vez mais os jornalistas para participarem não só das eleições, mas do movimento sindical. Temos eleições onde o voto não é obrigatório. Se analisarmos outras eleições em que não há obrigatoriedade de voto vemos que a participação de eleitores é sempre mínima, o que não é o caso das eleições da FENAJ, nas quais mais de 30% dos eleitores aptos votaram.